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agosto 17, 2018



Impossibilitando indiferença no leitor desde 1851, Moby Dick é o tipo de livro que, após lido, nos faz entender a influência que gerou e indiretamente chegou aos dias de hoje. Além disso, a excelência alcançada por Herman Melville justifica o poder leviatânico de sua masterpiece, exercido sobre gerações e gerações de artistas. 

Ao pesquisar acerca da obra, é casual achar o conceito de que se trata de dois livros em um. Observação válida, pois, além do conhecido enredo (Ahab, um vingativo capitão baleeiro vai junto com sua tripulação atrás de Moby Dick, uma baleia branca de proporções acima do comum, famosa por seu comportamento agressivo e tida como impossível de ser capturada), há também dezenas de capítulos que não se limitam ao enredo central. Ishmael, o poético narrador disserta em diversos pontos de maneira descritiva sobre tudo relacionado à pesca baleeira e cetologia da época. Ainda que esses momentos enciclopédicos possam incomodar o leitor que está ávido pelo desfecho da trama da caça a baleia branca, há uma clara riqueza nos capítulos secundários, pois revela a interessante perspectiva de uma prática quase inexistente hoje em dia. Ishmael empenha-se em tornar sua profissão honrosa, elevar seus adversários (as baleias) e enobrecer sua atividade. Ele aproxima-nos dos perigos e glórias que envolviam sua caçada.  

O início da viagem do "Pequod", navio que terá como desfecho a caça de Moby Dick, será em Nantucket, nos Estados Unidos. Apesar dos riscos e dos anos em alto mar, Ishmael procura por seu primeiro trabalho na área. Ao chegar na cidade, torna-se verdadeiramente amigo de um índio, Queequeg. Eles então conseguem vagas no Pequod, acreditando se tratar de apenas mais uma viagem com objetivo de capturar o maior número possível de baleias. 


As for me, I am tormented with an everlasting itch for things remote. I love to sail forbidden seas, and land on barbarous coasts. (Ishmael) 



Já em alto mar, outros membros da tripulação assumirão o protagonismo junto a Capitão Ahab. Dois dos três imediatos da embarcação serão de suma importância no decorrer da história: Stubb e Starbuck. O primeiro, sempre bem humorado, soa muitas vezes inconsequente e encara os perigos do ofício e a excentricidade do capitão com seu cachimbo e gargalhadas. O último, sempre racional e reservado, tenta encarar a viagem de maneira profissional, ansioso pela volta ao lar, onde aguardam seu filho e esposa. É nítido que Starbuck exerce um papel completamente antagônico a Ahab. Toda contagiosa loucura exercida pelo capitão é contrabalanceada por seu raro bom senso.  

O enredo principal não se limita ao que é contado por Ishmael , há uma variação de gênero narrativo ao longo do texto, das quais valem destacar os capítulos de estrutura teatral, impecáveis momentos shakespearianos e valorosos solilóquios, diversificação que não torna o livro essencialmente confuso, ao contrário, oxigena-o com diferentes maneiras de acompanhar a história.  

A fixação de Ahab pela baleia que em outra viagem arrancara sua perna é o aspecto mais fascinante da história. De maneira igualmente assustadora e encantadora Ahab tem em suas aparições os melhores momentos do livro. Ainda que flertando com a insanidade, demonstra incrível poder de persuasão sob sua tripulação. Compartilhando com eles sua obsessão, o velho capitão intriga o leitor entre promessas, injúrias e blasfêmias. O papel é tão impactante que até os dias de hoje, no idioma inglês a expressão "Chasing the white whale" é utilizada para descrever uma busca incessante, mesmo sem sentido e perigosa. 


I leave a white and turbid wake; pale waters, paler cheeks, where'er I sail. The envious billows sidelong swell to whelm my track; let them; but first I pass.” 


“Por onde navego deixo um rastro inquieto e branco, águas pálidas, rostos mais pálidos. Os escarcéus invejosos crescem pelos flancos para submergir meu caminho. Deixe-os, mas primeiro eu passo.” 


E a chance da vingança existirá, após tanto entender os personagens, após tanto entender o que é caçar baleias em alto mar seremos apresentados ao embate entre capitão e baleia que, de maneira intensa, foi alimentado pelo escritor. Se para Starbuck o velho capitão já perdeu para si mesmo após alucinada compulsão, Ahab ignora os sóbrios avisos e mantém que por papel de Deus ou do destino tudo que importa é sua vitória sobre Moby Dick. 

  
Sink all coffins and all hearses to one common pool! and since neither can be mine, let me then tow to pieces, while still chasing thee, though tied to thee, thou damned whale! Thus, I give up the spear!" (Ahab) 


Tido por muitos uma das prosas mais difíceis da literatura dos últimos 200 anos, Moby Dick é sem dúvidas um desafio agradável ao leitor contemporâneo, que não encontra facilmente leituras com esse peso no mercado atual. O título de "Shakespeare americano da prosa" se encaixa perfeitamente com o que fornece Melville em seu estilo poético. A já citada influência é imensurável. Desde o fortalecimento do arquétipo de capitão com uma perna de pau, há inúmeras adaptações no cinema, passando pelo nome de uma popular rede de cafeteria a discos de metal e card games. Para aquele que entende o que é ser obcecado por algo ou alguém: O que aguardas para ser influenciado? 



Sinopse: Obra máxima do Romantismo norte-americano, “MOBY DICK” foi escrito pelo escritor norte-americano Herman Melville e publicado originalmente em três fascículos com o título “A Baleia”, em Londres, em 1851, e ainda no mesmo ano em Nova York em edição integral. Somente a partir de sua segunda edição que ganha seu título definitivo, “MOBY DICK”.

O livro foi revolucionário para a época, com descrições intricadas e imaginativas das aventuras do narrador Ismael, suas reflexões pessoais, e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça, tradições navais, a cor branca (de Moby Dick), detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias. Apesar dessas características, a obra foi inicialmente mal-recebida pela crítica literária, assim como pelo público, mas com o passar do tempo tornou-se uma das mais respeitadas obras da literatura em língua inglesa. A fama de MOBY DICK e a revisão de sua importância e sua inclusão como parte do Cânone Ocidental da Literatura se inicia a partir da década de 1910, com a revisão literária realizada por Carl Von Doren e a publicação da obra “Studies in Classic American Literature”, elaborado pelo escritor, ensaísta e poeta britânico D.H. Lawrance em 1923.

Inspirado pelas experiências pessoais do autor e por outros acontecimentos que marcaram o período, Moby Dick representa, além de uma complexa narrativa de ação, uma profunda reflexão sobre o confronto entre o homem e a natureza, ou segundo alguns especialistas, entre o homem e o Criador, reforçada pela ‘universalidade’ dos tripulantes do navio “Pequod”, o que sugere uma representação da Humanidade. Obra de profundo simbolismo, MOBY DICK inclui referências a temas diversos como religião, biologia, idealismo, pragmatismo e vingança. Herman Melville tomou como base inspiradora a história do capitão George Pollard e de seu navio baleeiro “Essex” que, em 1823, foi atingido por uma baleia antes de naufragar. Depois que o “Essex” afundou, Pollard e sua tripulação boiaram no mar sem comida ou água por três meses, e recorreram ao canibalismo antes de serem resgatados.
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janeiro 18, 2018


Continuando a conversa do post anterior, apresento agora meu ponto de vista. Acho o assunto interessante, e realmente, às vezes pressionar-se para terminar certo livro torna a experiência menos agradável, vide leitura de escola/faculdade, raramente você vai ver algum aluno gostando do livro indicado pelo professor - não por uma questão das indicações não serem boas, mas pelo ato de ler sobre pressão estragar tudo.

Minha dica é a leitura fracionada, porém contínua. Todos sabemos que esse pode não ser o melhor método para a atenção, entretanto, há algo que particularmente me ajuda muito: ao retornar a leitura, faça a si mesmo questões acerca do livro, tente buscar na sua própria mente o que te enriqueceu até ali, e para onde você acha que o desfecho daquele livro se encaminha.

Logo, se você acorda cedo e tem um livro por perto o dia todo, ao fim do dia vai se surpreender o quanto avançou lendo duas, ou três páginas por vez. Lógico que há métodos mais técnicos e outras maneiras de desenvolver a leitura, mas é assim que eu consigo, trabalhando todo dia e, ainda assim, lendo bastante.

Respondendo a TAG do post anterior:

1. Quando e onde você lê? (exemplos: no ônibus indo para o trabalho; no intervalo entre uma aula e outra na faculdade; quando o bebê dorme e eu consigo um tempo pra mim; etc etc)
- Além dos óbvios, no trabalho e na hora do almoço.

2. Você consegue ler mais de um livro simultaneamente?
- Sim, mas eu acredito que é melhor não ler duas ficções juntas, ou seja, se um é ficção o outro provavelmente é filosofia, história, política, etc.

3. Você faz anotações e resumos?
- Tiro fotos dos trechos mais intessantes, pura preguiça.

4. Qual formato de livro você prefere (audiobook, ebook ou livro físico)? Algum desses formatos torna a leitura "mais fácil" pra você?
- Só fisíco, sempre.

5. Alguma dica para incentivar quem está com as leituras acumuladas ou estressado com as pendências?
- Crie o hábito de maneira progressiva e esteja com o livro sempre, mesmo estando em locais incomuns ou em uma situação que você não prevê que conseguirá ler. Ainda assim, leve-o. Minha leitura atual: Pensadores da nova esquerda, de Roger Scruton, publicado pela Editora É Realizações.

Sinopse: Neste livro, o filósofo britânico Roger Scruton analisa a obra de catorze intelectuais da chamada Nova Esquerda. São eles: E. P. Thompson, Ronald Dworkin, Michel Foucault, R. D. Laing, Raymond Williams, Rudolf Bahro, Antonio Gramsci, Louis Althusser, Immanuel Wallerstein, Jürgen Habermas, Perry Anderson, György Lukács, J. K. Galbraith e Jean-Paul Sartre. Antes de tratar destes autores individualmente, Scruton procura esclarecer o que é a esquerda e por que escolheu abordar estes autores. Ao final, ele também explicita a perspectiva subjacente a suas análises, de maneira a deixar claro de que ponto de vista partem as críticas feitas.


Trecho: "Publicado em 1986, (...) este livro é um ataque contundente aos teóricos marxistas cujas especulações referendam ditaduras (o caso cubano é paradigmático) e regimes, como o da Venezuela chavista, que usam eleições aparentemente democráticas para assegurar a perpetuação do despotismo. (...) Mais uma vez, é necessário demonstrar o tamanho da fraude perpetrada em nome da 'correção teórica' e da 'superioridade moral' do socialismo."


E vocês, também aproveitam os intervalos do almoço e do café para ler e postar nas redes sociais? O o que estão lendo atualmente?

Até a próxima,
Bruno Fraga.
janeiro 08, 2018


Dentre os excelentes romances escritos por John Steinbeck, um destaca-se por sua audácia: East of Eden. Publicado em 1952, o livro evidencia uma excelente geração de escritores americanos, pois é o mesmo ano de publicação de outro clássico: The Old Man And The Sea, de Hemighway,  reforçando a importância da literatura americana para o mundo, assim como foram os autores vitorianos no Reino Unido um século antes. Apesar de sua narrativa lembrar a de um romance comum, podemos considerar East of Eden como tendo o papel similar aos épicos nas culturas clássicas, por exercer influência na fundamentação das artes, cultura, nação e idioma.

Em suma, podemos dizer que East of Eden relata a história sobre duas famílias distintas: os Trasks e os Hamilton. Seus membros, durante sete décadas, protagonizam uma saga que percorre décadas, de Conneticut à California. À primeira vista seria natural apontar a trajetória das famílias como opostas, entretanto, após a influência que o patriarca dos Hamiltons, Samuel, terá no futuro dos Trasks, elas deixarão de ser distintas, e o desenvolvimento do enredo, antes separado por capítulos entre as famílias em diferentes partes dos Estados Unidos será canalizado no oeste americano.

O romance que conduz a história é o do casal Adam Trask e Cathy James. Suas vidas serão as mais detalhadas no desenvolvimento do livro, acompanharemos os dois em sua infância até seus últimos dias na terra. Sendo personificações de opostos do ser humano, se em um dos dois há ingenuidade, pureza e bondade, o inverso aparece no outro, com perversas atitudes que surpreenderão o leitor.

"I believe there are monsters born in the world to human parents. . . . The face and body may be perfect, but if a twisted gene or a malformed egg canproduce physical monsters, may not the same process produce a malformed soul?" 


O principal tema abordado pelo escritor é a aceitação e a rejeição do amor, discorrendo sobre a não correspondência do sentimento tanto em âmbito familiar como na paixão. Muitas vezes o assunto é abordado através de rica argumentação dos personagens sobre a natureza e os motivos de tal afeição e recusa. O mordomo chinês dos Trasks, Li, por exemplo, traz ao longo da história, de forma muito inteligente, uma perspectiva oriental sobre as tragédias particulares de seu chefe: 

"It seemed to Samuel that Adam might be pleasuring himself with sadness." 


As referências bíblicas, como a de Abel e Cain enriquecem a obra desde o título, mas não espere por isso alguma obviedade no andamento ou desfecho das histórias apresentadas. Há de se ressaltar o conflito de personagens nos expressivos diálogos que nos fazem parar, fechar o livro e refletir por alguns segundos sobre a distinta profundidade que existe ali.

Setenta anos passarão, o leitor será um espectador, como o próprio John Steinbeck, que se apresenta nesse livro como uma criança, misturando à sua ficção elementos da própria infância no vale californiano. Enquanto a história transcorre, conseguiremos ainda sentir saudades de certos personagens, desejar desfechos para alguns e ficar na curiosidade de outros. Para quem é recomendado?  Todos que em algum momento tiveram um sentimento rejeitado devem ler este livro e, se nada disso aconteceu com você, esse é o principal motivo para East of Eden ser sua próxima leitura:

“A great and lasting story is about everyone or it will not last.”

East of Eden também foi adaptado para o cinema em 1955 sob a direção de Elia Kazan e estrelado por James Dean. No Brasil, uma das últimas edições da obra literária foi publicada na década de 1990 pela Editora Record.

Até a próxima resenha!
Bruno Fraga

John Steinbeck
Editora Record, edição de 2015

Considerado um dos melhores livros do autor, abrange a história dos Estados Unidos desde a Guerra Civil até a Primeira Guerra Mundial. Publicado em 1952, relata a saga dos Hamilton (com base nos parentes maternos de Steinbeck, representando a “família universal”), e dos Traks, clã ficcional que mimetizaria os “vizinhos universais”, focalizando três gerações. A inspiração veio da Bíblia, pois recria o confronto entre Caim e Abel no cenário do vale de Salinas, na Califórnia, terra natal do autor.

outubro 12, 2017


H.G Wells, o "historiador dos anos a vir", como definido por Joseph Conrad, é tido como o mais influente escritor de ficção científica do século XIX, e ainda em nossa era goza de prestígio por clássicos como Guerra dos Mundos (1898), A Máquina do Tempo (1895) e O Homem invisível (1897). Sobre o último, há um fascinante imaginário sobre um ser humano que atinge um estado de invisibilidade, o qual, se não criado, foi fortalecido após seu livro de 1897. 

Iping, pacato vilarejo no interior da Inglaterra, é o cenário da história. Em locais pequenos, a chegada de um visitante é um contexto perfeito para fomentar variados comentários por toda cidade; quando este hóspede da pousada da sra. Hall apresenta um visual cujas luvas, chapéus e gorros o impossibilitam de ser identificado, somados a uma personalidade evasiva e um extenso aparato de materiais para estudos químicos, este homem apresenta elementos suficientes para causar comentários mesmo se ocorresse na cosmopolita Londres. 

Teorias e palpites sobre o insistente invólucro do misterioso homem se espalham, sendo um acidente, a tentativa de esconder uma deformidade visual, apenas a primeira. A excentricidade do visitante, de certo, não se limita a perspectiva dos interioranos. Logo entenderemos: estamos diante de um cínico, com comportamento debochado maximizado por uma inquietação que parece ter como razão algum insucesso.  

Com exceção do estranho visitante, a maioria dos personagens da história são de papel secundário. Sem detalhes fornecidos, servem para ambientar a história em bares, nas ruas, na própria pousada. O leitor desse clássico irá assimilar com facilidade a vida em Iping no final do século XIX. As explicações teológicas populares aparecem naturalmente como para qualquer fonte do desconhecido; furtos e estranhos acontecimentos parecem estar cada vez mais ligados ao "estranho".


Um homem com essa personalidade não iria revelar-se nem ao menos para o leitor de maneira não-extravagante. Griffin, sobrenome que pode gerar muitas teorias para o esplêndido personagem, é a única identificação que encontraremos. Sua singularidade é atestada pela extravagante maneira que leitores e personagens descobrem, tratar-se, sim, de um homem invisível. 

"An invisible man is a man of power.

Sua condição faz Griffin sentir-se imune às ameaças aos seus desejos. O excesso de segurança no estado de invisibilidade complica parcialmente seu caminho, que se torna mais árduo por uma incômoda solidão. De fato, atesta que antes do "invisível" há um "homem". Após perigosos contratempos em seus planos é a hora ideal da retirada: um colega de faculdade, Dr. Kemps, pode ser sua salvação, entretanto, Kemps percebe o que Griffin se tornou, não somente em sua forma física, mas em essência, e pode apresentar-se como um obstáculo. 

A história do homem invisível é então detalhada: ainda por ele somos convencidos da possibilidade científica com uma interessante explicação sobre a percepção humana das luzes e o caminho que seria traçado para alcançar a invisibilidade; ao mesmo tempo, a perversão do vilão imperceptível mostra-se além da fúria pós-condição, mas uma prévia personalidade já propensa ao maligno, mesmo que outros momentos humanizem Griffin e deixem a discussão sobre seus atos aberta. 

"His temper, at no time very good, seems to have gone completely at some chance blow, and forthwith he set to smiting and overthrowing, for the mere satisfaction of hurting."  

Mais do que o natural interesse que o assunto desperta, Wells sempre soube utilizar seus criativos temas sem abandonar aspectos sociais, emulando a natureza humana em histórias espetaculares e adicionando um calculado espaço para convencer os mais céticos do prazer imaginativo que é fantasiar aquela realidade descrita em suas ficções científicas. O Homem invisível encorpou-se em 1897, para se tornar um personagem utilizado nos filmes, quadrinhos, jogos e todas fontes contemporâneas de arte e entretenimento que ainda se curvam a originalidade do notável criador de clássicos H.G. Wells.  

maio 25, 2017

Quinta-feira, 25 de maio, dia do Orgulho Nerd, ou, mais especificamente, Dia da Toalha :) E como quinta é dia de #tbt, aproveitamos para relembrar nossas resenhas preferidas sobre o tema: O Guia do Mochileiro das Galáxias e Perdido em Marte, escritas pelo Jonatas e pelo Bruno. Confira!


O Guia do Mochileiro das Galáxias - por Jonatas T. B.

O Guia do Mochileiro das Galáxias, de Douglas Adams, atualmente é considerado uma das obras mais conhecidas do “cânon” nerd. Adams constrói uma visão de mundo onde nem o absurdo é capaz de escapar do discurso pretensamente científico. A história é pontuada por críticas sociais bem humoradas e bastante ácidas, que alfinetam desde a burocracia governamental até a percepção transcendente do mundo, bem ao gosto do que se é considerado, na modernidade, reflexões sobre a vida e o homem diante do universo.

A história começa com uma trágica situação. O jovem Arthur Dent está prestes a ter sua casa destruída para que se construa uma estrada estatal. Desesperado, ele decide se colocar na frente de sua moradia impedindo que o trator avance. É nesse instante que Ford Perfect, um alienígena que ficou preso na terra e se disfarçou de ator desempregado, subitamente aparece e o arrasta para um pub a fim de beber umas cervejas antes do fim do mundo. Sim. É exatamente isso. O planeta Terra está a poucos minutos de ser completamente destruído por extraterrestres chamados vogons a fim de construírem uma estrada espacial.

É importante ressaltar que Ford Perfect pertence a uma classe de viajantes intergalácticos que têm o propósito de catalogar e atualizar um livro eletrônico, uma espécie de enciclopédia editável para viagens bastante prático, ou seja, o próprio Guia do Mochileiro das Galáxias.
 
 
 

Marte: tema de fascínio para a humanidade, ponto de partida de relevantes teorias sobre o nosso universo como os estudos de Copérnico e as observações de Tycho Brahe. Nas artes inspirou clássicos de H.G Wells e Philip K. Dick entre inúmeros exemplos que são só uma parte do poder do planeta vermelho sobre nós.

Após a sonda espacial Mariner 4 fotografar pela primeira vez a superfície de Marte em 1964, passamos a ter uma ideia mais próxima da realidade sobre o planeta e uma perspectiva científica torna-se quase exclusiva nas histórias atuais sobre o assunto. Andy Weir desenvolve sua obra The Martian seguindo essa ambientação realista.

2035, Marte, uma forte tempestade de areia acontece durante a estadia da tripulação da ARES III no planeta. Apesar dos esforços, a tripulação sofre contratempos e é obrigada a retornar à Terra deixando o astronauta Mark Watney para trás.




E você, tem algum livro nerd preferido? Conta pra gente nos comentários <3
abril 19, 2017


"Se querem mesmo ouvir o que aconteceu, a primeira coisa que vão querer saber é onde eu nasci, como passei a porcaria da minha infância, o que meus pais faziam antes que eu nascesse, e toda essa lengalenga tipo David Copperfield, mas, para dizer a verdade, não estou com vontade de falar sobre isso. Em primeiro lugar, esse negócio me chateia e, além disso, meus pais teriam um troço se eu contasse qualquer coisa íntima sobre eles." 

Um livro que infelizmente é mais lembrado pelas controvérsias do que por sua qualidade literária, The Catcher in the Rye, publicado em Julho de 1951, tornou-se instantaneamente um clássico pela maneira que  J.D Salinger captou a essência da inquietude juvenil.

"Among other things, you'll find that you're not the first person who was ever confused and frightened and even sickened by human behavior. " (Nota do Autor )

Certos acontecimentos na vida de Holden Caulfield serão narrados por ele, mas somos advertidos: não espere um extenso desenvolvimento como visto em livros como David Copperfield, de Charles Dickens. Ao invés de focar em vários episódios sobre sua vida, Holden deseja contar sobre um "negócio doido" que aconteceu nas datas próximas ao último Natal.

O relato do protagonista é exatamente o que se espera quando um adolescente escreve: lotada de observações contraditórias, pensamentos confusos e palavrões, mas a doçura e inocência vista através das atitudes do jovem tornam a obra harmônica. 

Após uma série de reprovações, Holden é expulso da escola poucos dias antes do recesso de Natal. Com receio de encarar seus pais com a verdade, o jovem decide ficar em um hotel por uns dias e gastar seu tempo livre em uma jornada reflexiva sobre sua curta vida.  Acompanharemos então um fumante crônico, mentiroso compulsivo de 17 anos que passará por agressões, bebedeiras, encontros, arrependimentos, planos para fuga e questionamentos sobre paradeiros de patos no inverno. 

Mais interessante do que os acontecimentos por si só, é tudo que ocorre dentro da cabeça do protagonista. Por mais que a origem dos pensamentos do rapaz possa ser fútil e a conclusão simplista, os dramas existenciais a brotarem em sua mente são perspicazes. A maneira rápida com que os raciocínios são apresentado por Holden facilmente trazem alguma identificação ao leitor mais jovem, que poderá se surpreender por não esperar tamanho dinamismo em um livro dos anos 50.

Ao Tentar decifrar Holden Caulfield é natural remeter-se ao acontecimento negativo mais marcante na vida do jovem: a morte de seu irmão mais novo, Allie. As constantes lembranças fornecem combustível para tentar compreender a origem dos problemas do jovem. Apesar do principal motivo de sua fuga ser evitar seus pais, Holden revela que gostaria de estar naqueles dias próximos ao natal com sua irmã caçula. Phoebe, mesmo nova demonstra uma inteligência incrível e já enxerga os exageros nas dramatizações de seu irmão. 

O livro propositalmente permite uma série de interpretações. As questões começam desde o início, momento em que existe uma imprecisão do local onde Holden está narrando sua história. Tudo inserido sem apelar para um terreno vago de ideias que deixaria o leitor com a sensação de que ficou faltando algo. Acharemos centenas de análises do comportamento de Holden internet a fora, o que torna a experiência da leitura, mesmo após finalizada, incrível, oferecendo um exercício de infinita reflexão.

Salinger criou um personagem de fácil reconhecimento para todos aqueles que já se sentiram de alguma maneira deslocados, sem remover um calculado espaço para possibilitar uma visão mais pessoal do leitor. O fato de ser um dos escritores mais reclusos da história só aumenta o mito sobre suas obras, para a sorte de nosso imaginário.

“What really knocks me out is a book that, when you're all done reading it, you wish the author that wrote it was a terrific friend of yours and you could call him up on the phone whenever you felt like it. That doesn't happen much, though.” (Holden Caulfield)



março 14, 2017



Dostoiévski faleceu em fevereiro de 1881. Meses antes, por nossa sorte, havia concluído uma de suas obras mais reverenciadas: Irmãos Karamázov, que foi publicado em folhetim com seu término em novembro de 1880. Passam-se os anos mas seu trabalho jamais poderá ser classificado como ultrapassado devido a sua capacidade de retratar características universais recorrentes da essência humana.

A história, que foi publicada ao longo de quase dois anos na revista "O Mensageiro Russo", é hoje dividida em quatro partes, todas presentes na belíssima edição da Martin Claret.

A narrativa de Irmãos Karamázov, como o título sugere, tem o enfoque na vida de Dmitri, Ivan e Aliócha, e como suas personalidades distintas resultam em escolhas totalmente diferentes dentro da imensidão da Rússia Czarista do Século XIX.

O romance desenvolve-se predominantemente na figura de Aliócha, o irmão mais novo que demonstra uma alma pura, um rico desejo de ajudar o próximo, e encaminha-se para seus votos religiosos, decisão inesperada por aqueles que conhecem a família, pois o caçula mostra que é o exato oposto de seu pai, Fiódor Pavlovitch Karamázov, um monstro libertino, difamado por sua vida libidinosa e rígido controle das finanças herdadas de suas duas falecidas ex-esposas - convém, além disso, ressaltar boatos que Smerdiakov, o excêntrico servo da família, seria filho bastardo de Fiódor.

Ivan, possuidor de distinta inteligência, é, no entanto, egocêntrico e não se importa com a vida de seus irmãos. Dmitri herdou de forma mais direta as características de seu vicioso pai, embora, ainda que não fosse tão maléfico quanto o progenitor, apresenta a ganância e ira que fazem aqueles ao redor perceberem se tratar de um "Karamazov". É como portar uma herança maldita, independente do contrabalanço feito pelo ingênuo Aliócha.

Uma trama tão extensamente desenvolvida não poderá aqui ser resumida em uma simples resenha de poucas palavras, entretanto, os acontecimentos cruciais para o desenrolar da história envolvem a insistência de Dmitri em receber uma herança prometida por seu pai , enquanto Aliócha aproxima-se cada vez mais da vida consagrada e Ivan luta para controlar o exasperado amor por Katerina Ivanova, noiva de seu irmão mais velho.

O leitor é contemplado com ricas informações da cultura e cotidiano russo, todavia, sentimentos universais são apresentados através dos agudos devaneios e anseios característicos do romance psicológico, além dos excelentes sermões do padre Zosima, com genuínas e profundas reflexões filosóficas. Há de se ressaltar também narrativas emocionantes como a do jovem enfermo Kólia que preenchem o livro e tornarão a proximidade com aquele cotidiano ainda mais viva. 

"Sobretudo, não minta a si mesmo. Quem mente a si mesmo e ouve a própria mentira chega a não distinguir mais a verdade, nem em si, nem no mundo ou ao redor;  então perde o respeito por si mesmo e pelos outros. A pessoa que não respeita ninguém deixa de amar... "

Ao pensarmos em um livro que fala da vida de uma família, poderíamos nos remeter à forma mais tradicional de amor, mas amar, odiar e vingar-se como um Karamázov, torna o encontro em um tribunal inevitável. Sob a ótica interior de um dos acusados, bem ao estilo já consagrado do autor, o leitor se envolverá em todo processo de "Crime e Castigo" entre os envolvidos em uma atrocidade supostamente cometida por um Karamázov.

Irmãos Karamázov atinge sua condição de clássico não por acaso, sua leitura é uma experiência que remete uma maravilhosa viagem pelo íntimo dos personagens, a partir de diálogos primorosos e surpresas dentro da trama. Do ponto de visto técnico, devemos pontuar a variedade de estilos que o autor emprega ao longo da trama. O livro não deve assustar o leitor por seu grande número de páginas, visto que a qualidade encontrada ali tornam isso um mero detalhe. 


Irmãos Karamázov - Fiódor Dostoiévski
Tradutor: Herculano Villas-Boas

Os irmãos Karamázov é o último romance de Dostoiévski e traz à baila as “malditas” questões existenciais que o afligiram a vida inteira, com especial relevo para a flagrante degradação moral da humanidade afastada dos ideais cristãos. A narrativa põe em foco três protagonistas irmãos, representantes dos mais diversos aspectos da realidade russa – o libertino Dmítri, o niilista Ivan e o sublime Aliocha – a fim de alumiar as profundezas insondáveis do coração entregue ao pecado, corrompido por dúvidas ou transbordante de amor.
fevereiro 23, 2017


"Being nobody's child he feels rather more keenly than another would that he is a Russian - or he is nothing" (Nota do Autor) 

Um livro que poderia facilmente ser apresentado como baseado em fatos reais, não só pela pontualidade em retratar a política russa do início do Século XX, mas também pela fidelidade em descrever as batalhas psicológicas e emocionais que podemos viver. Assim é a escrita de Joseph Conrad, em Under Western Eyes, publicado no Brasil em 1984 pela Editora Brasiliense.

Entre a opressão do governo czarista e a estupidez dos revolucionários, está o povo russo. Neste cenário conturbado, está Razumov, um jovem órfão, estudante da universidade de São Petersburgo, que sobrevive graças a uma modesta ajuda financeira de um misterioso aristocrata. 

Tanto nos dias de hoje como no início do século, sempre foi notória a capacidade de fomentação de ideias subversivas nas universidades. Razumov internamente as despreza, no entanto. Devido a sua inteligência, era visto com imenso potencial por alunos ligados a causa revolucionária. Certo dia, ao chegar em casa, o jovem depara-se com um dos mais radicais progressistas da universidade sentado em sua cama: Victor Haldin, que acabara de cometer um fatal atentado terrorista, envolvendo assim Razumov, para sempre, em todo o movimento revolucionário russo. 

Logo descobrimos que esta história está sendo narrada em Genebra, na Suíça, por um professor de inglês, (que também um espectador privilegiado de reuniões com exilados russos, e com acesso a antigos documentos e diários, inclusive do jovem órfão), claramente com dificuldades de entender o povo e a política daquele país devido a perspectiva de seus "olhos ocidentais". 

Victor Haldin, vivo ou morto, torna-se um fantasma íntimo para Razumov. As questões que aparecem em sua mente e o indesejado envolvimento com as insurgentes forças rebeldes foram suficientes para destruir não só suas aspirações, descartar seu árduo trabalho, mas também para trucidar seu sono, sua paz. 

Por trás do emaranhado de elos apresentados na trama, Mikulin, chefe do Departamento do Secretariado-Geral, condiz com sua fama de saber utilizar pessoas para alcançar seus objetivos, e tem em Razumov uma inesperada chance para seu êxito pessoal e profissional. Uma interpretação a somar-se sobre a história do jovem estudante após a leitura é de que se algo dentro de você te aprisiona, nem toda liberdade do mundo, e nem a mais democrática das nações poderá te libertar. 

Joseph Conrad, com a mesma qualidade que descreve a natureza opressiva do desconhecido na África em Heart of Darkness (publicado no Brasil pela Hedra e Companhia das Letras), e minúcia ao escrever acerca do conturbado jogo de poder latino-americano em Nostromo (publicado em 1991, também pela Companhia das Letras), vai além em Under Western Eyes, pois não só é magistral ao retratar a tensão política vivida na Rússia naquele tempo, como também consegue transpor para o papel os intensos devaneios de seu personagem principal, diretamente nos remetendo a Dostoievski e outros gênios russos, independente do suposto desprezo que Conrad sentia por esses escritores.

"As palavras, como todos sabem, são as grandes inimigas da realidade (…); chega uma época em que o mundo é apenas um lugar de muitas palavras, e o homem parece um simples animal falante, não muito mais digno de admiração que um papagaio."

("Words, as is well known, are the great foes of reality (…); there comes a time when the world is but a place of many words and man appears a mere talking animal not much more wonderful than a parrot.")


fevereiro 02, 2017

"Domingo, 27 de janeiro

Tentei, mas não consegui ficar até o final do bingo. Quando começou uma briga por causa do quinto prêmio - um salsichão de fígado do Aldi, de noventa centavos -, disse que estava com enxaqueca e fui para o quarto. É prático ter enxaqueca porque é algo aceito como desculpa em toda parte. Quando cheguei aqui e ninguém me conhecia, apresentei minha enxaqueca inventada e, desde então, já fiz uso dela inúmeras vezes. Espremer um pouco os olhos e esfregar a mão na testa é o suficiente. Alguém sempre pergunta preocupado se por acaso não estou com enxaqueca. Então preciso 'deitar um pouquinho'. Nenhuma chateação para meu lado e fim de papo."



Tentativas de fazer algo da vida, o best-seller holandês que retrata o cotidiano de um senhor que vive em uma das centenas de casas de repouso para idosos em Amsterdã, chega ao Brasil publicado pelo selo TusQUETs da Editora Planeta de Livros

O sucesso do livro atraiu a curiosidade da mídia para descobrir a real identidade do autor, que, de maneira brilhante, escreve em seu diário sobre a vida de quem já não vê muitos motivos para se importar com o que os outros pensam. 

Independente da pessoa por trás do pseudônimo, Hendrik Groen conhece bem o cotidiano dos moradores de casas de repousos e, acima de tudo, conhece o ser humano e sua natureza conflituosa, pois mesmos idosos em cadeiras de rodas tendo que usar fraldas demonstram inveja, praticam bullying , entram em inúmeras discussões e talvez só não haja luta corporal pela precária condição física dos contestantes. 

Hendrik, porém, não quer que o resto de sua vida se resuma a isso. Já vivendo no asilo por alguns anos e sem receber visitas, junta-se aos poucos, mas bons amigos que também vivem lá e funda o Tovemantomo (Tô velho, mas não tô morto), um grupo que planeja reuniões, jantares e passeios semanais para aproveitar o pouco da vida que lhes restaram. 

Partimos então para as aventuras do grupo narradas de forma muito animada no diário de Hendrik. Evert, melhor amigo de nosso herói, torna os dias e a leitura bem mais divertidos com muitas piadas politicamente incorretas e domínio na arte de constranger os outros. Eefje, uma senhora que acaba de chegar ao asilo com muita graciosidade e seu peculiar hobby de ouvir áudios de pássaros em cds, encanta Hendrik, que passa a nutrir um belo sentimento por sua nova amiga. 

Não há como deixar de falar sobre as interessantes citações acerca da cultura holandesa que são apresentadas no livro. Nós, que não estamos o tempo todo rodeados pela cultura desse país, aprenderemos algumas coisas bem interessantes sobre costumes, culinária, música e até sobre os programas de televisão dos países baixos. 

A excitação ao escrever um diário, coisa que nunca tinha feito antes, os animados passeios e a chegada de alguém especial melhorariam a vida de qualquer um . Estar em uma casa de repouso sem familiares e sem receber visitas nos depressivos domingos torna a ligação de Hendrik ainda mais forte com seus amigos ao redor. Amigos que podem cair e quebrar um osso, entrar em coma, ter Alzheimer ou tantas outras enfermidades e deixá-lo na já experimentada solidão. Desta forma, a leitura nos faz refletir, pois, em meio a tantos sentimentos compartilhados por qualquer faixa etária, a tristeza em ser deixado para morrer é insuperável. 

O leitor poderá experimentar alguma resistência ao ler tanto sobre a defesa quase compulsiva de Hendrik da eutanásia ou mesmo discordar de algumas de suas visões políticas. Poderá achar que o estilo diário nos best-sellers hoje em dia está em sobre demanda, mas não, não há como serem mais forte do que as belas mensagens contidas na obra. Favor, aguarde até os 84 anos para discordar. 



Hendrik Groen

Hendrik Groen pode ser velho, mas nem de longe está morto – e não planeja ser enterrado tão cedo. Seus passeios estão ficando mais curtos porque as pernas já não dão conta, as visitas ao médico se tornaram mais frequentes do que gostaria. É nesse momento da vida que se pergunta se não há nada mais a fazer além de tomar chá fraco e cuidar de flores. Quando o novo ano começa, ele toma uma decisão: escreverá todos os dias um diário, contando os altos e baixos de sua rotina num asilo em Amsterdã. O resultado é um olhar terno e hilário sobre a terceira idade, mas é também um devastador retrato de uma parcela da população esquecida pela família e pela sociedade.
dezembro 20, 2016


É sempre difícil para nós, ocidentais, falarmos sobre a literatura japonesa e sua cultura em geral, pois normalmente não temos o conhecimento adequado para uma analise profunda em relação ao que influenciou aquela obra. Alguns podem ousar e dizer que Sanshiro, de Natsume Soseki, tem forte influência do romantismo, e talvez tenha, mas isso de modo nenhum removeria a originalidade da obra que tem o poder de, pausadamente, adentrar o íntimo do leitor, mesmo que suas 272 páginas sejam lidas em um dia.

O início do livro conta com uma introdução do próprio Natsume Soseki, que já adianta bem a serenidade cotidiana que ditará o ritmo dessa história. Além de chamar seu próprio romance de "trivial", diz sobre os personagens e locais narrados na história: "Esta obra consiste apenas em soltar tais pessoas nessa atmosfera.".

Na Tokyo do período Meiji (1868-1912), vindo do interior, Sanshiro chega após uma longa viagem de trem para ingressar como aluno na Universidade de Tokyo. Logo tem de lidar com o choque de realidades, a confusão da cidade grande se potencializa devido sua imaturidade e, em seu próprio interior, a sensação é de estar tão perdido quanto  em suas caminhadas pelas confusas ruas da já então metrópole japonesa.

As cartas enviadas por sua mãe são um refugo que momentaneamente o levam de volta para sua pacata vida em Kumamoto. Professores ausentes, alunos desinteressados e tantas características que poderiam descrever uma universidade brasileira nos dias de hoje são alguns dos motivos que abatem a excitação por conhecimento que o jovem pode ter tido ao imaginar a vida no campus.

Yojiro Sasaki é o personagem que faz a história se mover, mesmo que para isso tenha que sempre recorrer a empréstimos financeiros. O estudante é o principal companheiro de Sanshiro e tem papel fundamental de apresentar novas pessoas ao seu amigo interiorano. A atitude de Sanshiro diante dessas novas pessoas muitas vezes assemelha-se com a de um leitor, pois o mesmo fica atônito;  não reage, se escondendo no conforto de sua timidez.

A obra de Soseki consegue abordar temas profundos de uma maneira cotidiana, muitas vezes acompanhada da "fumaça filosófica" do professor Hirota diálogos focados em diversos temas sérios, como o papel da academia, a influência ocidental sobre a cultura japonesa e a relação dessa influência com a independência das mulheres .

No meio de tanta calmaria, surge uma paixão. Sanshiro, que chega a ouvir que "não era lá uma pessoa muito corajosa", se incomoda com sua inépcia, mas saberá ele agir? Teria ele alguma chance? Apaixonar-se pela bela Mineko, que é exatamente o oposto da personalidade insegura de nosso herói seria uma questão de tempo. 

O desfecho dessa paixão pode não ser óbvia para todos, mas para aqueles que lembram dos momentos covardes da juventude, ou os que  ainda os vivem sabem muito bem o caminho que Natsume Sosseki guiará o leitor no desfecho dessa história.

Por Bruno Fraga 


“A mulher passou por ele. Sanshiro, ainda parado, observou atentamente a silhueta que se distanciava. Ela chegou à bifurcação. No instante em que ia dobrar, voltou-se ainda mais uma vez. Sanshiro ficou desconcertado por sentir as faces lhe corarem. A mulher sorriu e fez um gesto com a cabeça como que perguntando se era ali mesmo que devia dobrar. Sanshiro fez que sim. A silhueta da mulher seguiu para a direita, escondendo-se atrás da parede branca.

Sanshiro deixou, absorto, a entrada do prédio. Deu uma dúzia de passos ainda imaginando se ela teria lhe perguntado o número do quarto porque o confundira com um estudante da Faculdade de Medicina, quando se deu conta de que, no momento em que a mulher lhe indagara pelo quarto 15, poderia tê-la acompanhado, mostrando-lhe ele mesmo o caminho. Lamentou sua própria atitude.

Agora não lhe vinha a coragem de voltar lá. Julgando não ter mais o que fazer, caminhou mais um pouco e dessa vez parou por completo. Na cabeça de Sanshiro refletiu-se a cor laço que a mulher usava. Tanto a cor quanto o material eram indênticos ao do laço que Nonomiya comprara na loja Kaneyasu, uma ideia que lhe tornou as pernas pesadas. Passando pela biblioteca como que a rastejar, dirigia-se ao portão principal quando Yojiro chamou-o de algum lugar." 

Sobre o autor: Natsume Soseki nasceu em Tóquio em 5 de janeiro de 1867. Teve infância difícil e solitária. Aos 23 anos, inicia seus estudos de literatura inglesa. Sempre vítima de crises nervosas, viaja à Inglaterra em 1900 como bolsista do Ministério da Educação. Não se adapta à cultura ocidental, entra novamente em depressão e regressa ao Japão em 1903. Seu recorrente estado depressivo o afasta da família. Falece em 9 de dezembro de 1916. Soseki permanece até hoje como um dos escritores mais populares e lidos do Japão. Destacou-se em todos os tipos de escrita, assinando importante obra de teoria literária, totalmente inovadora para a época. Se de um lado foi marcado pela influência ocidental, de outro apregoou a valorização da cultura tradicional nipônica.

Obras: Sanshiro; O portal; Eu sou um gato; E depois; Botchan
Editora Estação Liberdade
novembro 08, 2016

"O pôr-do-sol flamejante abandonou o topo das montanhas e o crepúsculo desceu sobre o vale, enquanto uma semi-obscuridade engolia os salgueiros e sicômoros. Uma grande carpa surgiu à superfície do lago, engoliu o ar e afundou de novo misteriosamente na água escura, produzindo círculos concêntricos. No alto, as folhas sussurraram mais uma vez e pequenos flocos de algodão soltaram-se dos salgueiros, pousando na superfície do lago.

— Você não vai buscar a lenha? — perguntou George. — Tem muita lenha bem atrás daquele sicômoro. Foi a enchente que trouxe. Vai buscar logo.

Lennie desapareceu atrás de uma árvore e surgiu com uma braçada de gravetos e folhas secas. Jogou-a no antigo monte de cinzas e voltou várias vezes para pegar mais. Era quase noite. As asas de uma pomba sibilaram sobre a água. George andou até a pilha seca e acendeu-a. A chama crepitou entre os gravetos, incendiando-os. George tirou da mochila três latas de feijão e colocou-as bem junto ao fogo, mas sem que este as tocasse.

— Esse feijão dá pra quatro homens — disse George. Lennie observou-o por cima do fogo.
— Gosto dele com molho de tomate — disse, paciente.
— Não tem molho de tomate nenhum!"



Of Mice and Men

Quantas páginas são necessárias para se contar uma história que nos toque por sua ternura e beleza? E quantas outras são necessárias para alertar-nos que a vida também é rigorosa e áspera? Menos de 100 foram suficientes para John Steinback em "Of Mice and Men", e de forma magistral.  

Em meio a grande depressão americana, somos apresentados a George, Lennie e seu grande sonho, o de terem um rancho só para si, rodeados de coelhos e talvez outros animais dóceis. Para tal façanha, no entanto, não há outro caminho senão através do suor do trabalho.

A história é contada de forma bem direta, característica do autor,  e se inicia com a dupla alcançando um riacho após uma longa viagem. Há sede, fome e até um pouco de tempo para afagar um pobre rato encontrado no caminho.
 
O bruto, porém puro, Lennie sempre encontra uma maneira de testar a paciência do sagaz George, líder da dupla, que consegue um razoável trabalho para eles em uma fazenda. Lá, a esperança da dupla soma-se a do velho Candy e do rabugento, porém caridoso, Crooks, que passam a partilhar do mesmo objetivo de um rancho próprio. Somando-se mais duas economias, talvez o desejado pedaço de terra não estivesse tão distante assim. 

O ritmo da labuta é desgastante, mas os laços criados ali se tornam cada vez mais fortes. Todos parecem estar sempre ao lado de George e Lennie, nem mesmo Curley,  filho do "chefe", que sempre procura uma briga, parece ser capaz de abalar as novas amizades.

Steinbeck, porém, é um escritor realista. Sabemos que a vida não é feita só de esperança. Por vezes temos dificuldades de administrar nossas ações. Situações que pareciam simples saem de nosso controle. Logo, a única coisa que resta é fugir carregando os sonhos até o próximo riacho para uma pausa, ou para sempre. Quem sabe.

Em "Of mice and Men" a próxima página pode significar algo que o leitor não queira ler. A objetividade que nos carrega através de uma bela história pode ser a maneira mais cruel de nos transportar para um ponto de colisão do livro onde existe dor e sangue. Mas, ainda nesses momentos adversos não é difícil entender que a esperança daquele sereno pedaço de terra para chamar de "seu" é imortal, mesmo que não sejamos.


Bruno Fraga


PS: Caso não encontre a edição da Penguin, há uma edição de bolso de "Ratos e Homens" publicada pela Editora LP&M.


Ratos e Homens / Of Mice and Men
John Steinbeck
Tradução de Ana Ban

Ratos e homens, publicado originalmente em 1937, é um dos mais belos textos de John Steinbeck (1902-1968) – um dos maiores romancistas do século XX – e até hoje um dos livros mais lidos do autor.

George e Lennie são dois amigos bem diferentes entre si. George é baixo e franzino, porém astuto, e Lennie é grandalhão, uma verdadeira fortaleza humana, mas com a inteligência de uma criança. Só o que os une é a amizade e a posição de marginalizados pelo sistema, o fato de serem homens sem nada na vida, sequer família, que trabalham fazendo bicos em fazendas da Califórnia durante a recessão econômica americana da década de 30. Ganham pouco mais do que comida e moradia. No caminho, encontram outros sujeitos pobres e explorados, mas também situações que colocam em risco a sua miserável e humilde existência.

Em Ratos e homens, Steinbeck levou à maestria sua capacidade de compor personagens tão cativantes quanto realistas e de, ao contar uma história específica, falar de sentimentos comuns a todos seres humanos, como a solidão e a ânsia por uma vida digna.

Um clássico sobre o doloroso período da Grande Depressão americana. Uma peça de ficção para ser lida e relida.
outubro 13, 2016

Parceria: uma das palavras-chave de todo Blog. Aqui no Papel Papel, neste primeiro ano de atividades, a contribuição de diversos amigos blogueiros tem sido essencial para a construção e crescimento de nossa página! Meu agradecimento mais que especial a todos vocês que acompanham e acreditam neste projeto, seja aqui no Blog, no Face e principalmente no Instagram, onde tudo começou <3 Em particular, quero dizer um muito obrigada aos amigos Diego França e Marcelo Marchiori pela gentil postagem em nosso especial do mês de junho, e claro, aos nossos amigos-colaboradores-companheiros-de-sempre Jonatas e Regiane, que passam mais tempo aqui no Papel Papel do que em suas próprias páginas rs :D 

E como as ideias são muitas e a mente irrequieta, é bem possível que nosso time de escritores cresça... :) E pra dar um pequeno "spoiler" deste 2017-por-vir, compartilhamos no post de hoje um texto bem diferente de tudo o que já postamos aqui: conheçam o trabalho de nosso novo colaborador, Bruno Fraga, que também carioca e voraz-entusiasta de clássicos da literatura e ficção em língua inglesa. Para esta primeira postagem, Bruno escolheu apresentar o livro The Martian, do escritor Andy Weir, traduzido como Perdido em Marte e publicado em 2014 pela Editora Arqueiro. Esperamos que gostem! E deixem suas opiniões e também um alô de boas-vindas lá nos comentários :)



The Martian

Marte: tema de fascínio para a humanidade, ponto de partida de relevantes teorias sobre o nosso universo como os estudos de Copérnico e as observações de Tycho Brahe. Nas artes inspirou clássicos de H.G Wells e Philip K. Dick entre inúmeros exemplos que são só uma parte do poder do planeta vermelho sobre nós.

Após a sonda espacial Mariner 4 fotografar pela primeira vez a superfície de Marte em 1964, passamos a ter uma ideia mais próxima da realidade sobre o planeta e uma perspectiva científica torna-se quase exclusiva nas histórias atuais sobre o assunto. Andy Weir desenvolve sua obra The Martian seguindo essa ambientação realista.

2035, Marte, uma forte tempestade de areia acontece durante a estadia da tripulação da ARES III no planeta. Apesar dos esforços, a tripulação sofre contratempos e é obrigada a retornar à Terra deixando o astronauta Mark Watney para trás.

O drama de Watney em Marte é bem retratado pelo próprio personagem com detalhes, mas não espere o foco na dor, solidão e questões existenciais assolando sua mente, Watney sempre tem um plano e uma piada para a situação, por mais estranho que isso possa parecer. Porém, a lei que dita as regras em Marte é a de Murphy e novos desafios aparecem a cada página nas aventuras do astronauta piadista.

A maior parte do livro é escrita em forma de diário e de linguagem acessível, mesmo adicionando informações científicas complexas sobre as ações de Watney. O desenvolvimento do livro, por mais que seja previsível, é dinâmico e de modo nenhum deixa o leitor entediado. Cada novo risco de explosão gera o suspense necessário, e uma nova solução quebra o ritmo de forma muito agradável.

Busca por comida e contato com a terra, a exigência de reparos em equipamento vitais para a sobrevivência, a solidão causada por ser a única criatura vivo em todo um planeta e a necessidade de estar preparado para a execução de um plano que tem tudo para dar errado. É quase impossível pensar em um livro divertido lendo a sinopse de The Martian, mas definitivamente essa é a palavra que todos usarão após o término da leitura.

É difícil considerar The Martian uma obra do mesmo nível que o de outros grandes clássicos da ficção cientifica. Pode se criticar a limitação poética e é facilmente notável certa falta de profundidade. Não espere as reflexões internas que tanto admiramos nas obras de Philip K Dick ou as sociais nas obras de H.G Wells, porém Andy Weir foi muito competente e fez um bom livro com muita criatividade e inteligência, um personagem carismático e bom desenvolvimento, uma história para se divertir antes de refletir, pronta para Hollywood... ponto para Hollywood.

Bruno Fraga



Editora Arqueiro, 2014

Sinopse: Há seis dias, o astronauta Mark Watney se tornou a décima sétima pessoa a pisar em Marte. E, provavelmente, será a primeira a morrer no planeta vermelho.

Depois de uma forte tempestade de areia, a missão Ares 3 é abortada e a tripulação vai embora, certa de que Mark morreu em um terrível acidente.

Ao despertar, ele se vê completamente sozinho, ferido e sem ter como avisar às pessoas na Terra que está vivo. E, mesmo que conseguisse se comunicar, seus mantimentos terminariam anos antes da chegada de um possível resgate.

Ainda assim, Mark não está disposto a desistir. Munido de nada além de curiosidade e de suas habilidades de engenheiro e botânico – e um senso de humor inabalável –, ele embarca numa luta obstinada pela sobrevivência.

Para isso, será o primeiro homem a plantar batatas em Marte e, usando uma genial mistura de cálculos e fita adesiva, vai elaborar um plano para entrar em contato com a Nasa e, quem sabe, sair vivo de lá.

Com um forte embasamento científico real e moderno, Perdido em Marte é um suspense memorável e divertido, impulsionado por uma trama que não para de surpreender o leitor.