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fevereiro 13, 2018


Se você, como eu, adorava passar manhãs inteiras assistindo animações com aqueles personagens de olhos grandes e formas arredondadas, e, no fundo, você sentia serem diferentes de outros desenhos, então saiba que deve aquelas prazerosas manhãs ao falecido cartunista Osamu Tezuka. Não por acaso ele também é chamado de deus dos mangás pelos seus fãs. Não se engane. Se você gosta das aventuras Dragon Ball, de Akira Toriama (autor que praticamente idolatrava Tezuka), de Os Cavaleiros do Zodíaco, Yuyu Hakusho ou mesmo da safra mais antiga como Speed Racer, Patrulha Estelar e Força-G, deve e muito ao autor. Além de desenvolver diversas técnicas e tendências que vemos até hoje nos animes japoneses, quando se consolidou como artista, não seguindo pela área de medicina, Tezuka foi uma espécie de embaixador dos mangás. Ele viajou por todo mundo encontrando artistas importantes como Moebius e Walt Disney.

Pessoalmente, sempre gostei da obra do Tezuka. Quando criança assistia Don Drácula, Kimba, o leão branco e na adolescência li os mangás Buda e Adolf, além da animação Metropolis, dirigida por Katsuhiro Otomo. Outras obras como A Princesa e o Cavaleiro, Black Jack, Phoenix, Nova Ilha do Tesouro, Magma Taishi, inclusive uma releitura das histórias bíblicas em versão de mangá chamada Seisho Monogatari, estão no vasto acervo de 150.000 páginas desenhadas até o final da sua vida, e eu pretendo ler pelo menos metade disso. Torça por mim!




Já fazem vinte e nove anos que Osamu Tezuka faleceu. No dia nove de fevereiro de 1989, dizem que brigava com a enfermeira por não deixá-lo desenhar na cama de hospital. Posteriormente, Mauricio de Sousa, seu amigo pessoal, prestou homenagens a Tezuka com uma tirinha de personagens da Turma da Mônica consolando a princesa Safiri e lançou uma aventura com personagens da turminha unidos com personagens do universo de Tezuka.

Esta é a homenagem do blog Papel Papel em agradecimento pela vasta e belíssima obra de Tezuka, que tem influenciado gerações de leitores pelo mundo todo.

Valeu, Tezu!

Jonatas

janeiro 19, 2018




A vida no interior de uma palavra



A água está quente. Os grãos de areia que grudaram com o suor no meu rosto abrasam minha pele. Meus olhos estão fechados enquanto ensabôo minha cabeça. Mas penso que nem tudo é feito de grãos. Nem tudo desintegra feito pó. Às vezes, palavras montam um muro alto e móvel como um cubo mágico na nossa mente. Um labirinto de imagens que nós mesmos construímos a partir de um desejo como talvez seja o amor. Talvez eu arrisque um mapa. Represar o labirinto sem nome para não me perder. Mas, no fim, não importa. As palavras me cercam com seu grande muro alto e móvel. Eu não seria capaz de encaixar o momento em que comecei a pensar nessas coisas. O sol estava quente, creio. O trabalho foi duro. Foi. Os tijolos estão todos empilhados. Mas parece que carrego torres deles nos meus ombros. Não. Estou limpo. A espuma branca já se foi com a água. Agora, só resta o perfume no rosto. Em uma palavra cabe minha vida, creio, mas minha vida jamais conseguirá tomar forma de uma palavra. Não enquanto estiver vivo. Por enquanto, a palavra se torna ela mesma. E, talvez, minha vida continue assim, um pouco minha.



Jonatas T. B. 
Janeiro 2018
agosto 15, 2017



Dos sentidos

Respira o ar que sai da boca. O próprio perfume lhe basta. Há ocasiões em que o coração engole o sangue; as mãos e a postura fremem. O poro abre de repente: a pele exala jasmim e enxofre. Os segundos se abatem na impostura das aves aos beirais do prédio. Em favor do instante, ninguém atravessa o corredor. Ninguém passa por nós.

Quando mal a boca transborda água. Dentro dela, duas tempestades sucedem ao toque. Não se enxerga sob as dunas de névoa algum continente. Apenas montanha de cinzas. Dois caprinos duelam à beirada da rocha. A ponta dos chifres fere o flanco dos céus em sua queda.

O lábio da concha se abre.

Os corredores se incendeiam. Entre dentes, retém sabor de morangos. Fecho os olhos e vejo o sorriso tateando minhas digitais, um vitral colorido no escuro. Agarro-me à rede feita de cabelo ao redor do rosto. Sob as unhas guarda minha pele e meu sangue.

A língua lança uma pedra.

Estilhaça a janela do santuário.


Por Jonatas T. B. | Agosto 2017


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julho 20, 2017




Sobre o mar, nenhum filho do homem caminha, pois hoje não há tempestade.

À margem da enseada. Alheio ao atol, às angras, distante dos marinheiros submersos em bruma. Um albatroz coroa a penha. As penas farfalham. O céu está vazio. A vaga cinza se estende às veias do horizonte.

- É teu o oceano inteiro.

Interrompo a travessia por terra, caminho para eflúvio espumoso. Persigo os degraus das ondas.

A água, de repente, me espeta. Arremete contra meu rosto, me afoga. Agarra aos calcanhares, eu retraio. Adentro a concha em espiral secreta, meus ossos erodindo feito castelo.

As invasões, salinas e breves, de espuma me enchem os pulmões.

Limpa da garganta a pronúncia do primeiro nome.

Água nos ouvidos me ensurdecem, em ameaça:

Ou o mar. Ou nada.





Por: Jonatas T. B.
Foto: Rebeca C.

Leia o texto #1 da série


julho 14, 2017


Faz alguns meses que escrevi um livreto curto para presentear uma pessoa. Chamei-o imediatamente de "Anatomia de Julho". Se tivesse que explicar sobre o que é, diria tratar-se de breves capítulos ou versículos consequentes do choque tênue, confuso e violento entre dois universos, dois pedaços de vida. Durante a escrita, não procurei ser claro, tampouco obscuro: simplesmente escrevi algo com a pretensão de ser um texto belo e terrível.

Nada mais.


P. S.: Agradeço a todos que dão vida ao que escrevo com suas fagulhas inomináveis dançando por trás de seus olhos.

Jonatas T. B.

(Fotografias: Rebeca C.)




I

Não posso considerar nada a respeito de um mês sem ter vivido seus dias, ou mesmo ditar algo sobre seu sabor sem ao menos o ter imaginado passear na minha língua.

II

Jamais saberei se trata-se apenas de mim e não de ti, ou dos nós nos fios de cabelo que acordam unidos em coro de quando adormecemos à noite.

III

As tramas desejam ser ouvidas, enquanto ainda podemos nos ouvir respirar.

IV




     A caneta desliza entre os dedos e se perde na banheira. E afunda. Até encostar a pele entre as coxas submersas. Em verdade, agora o mundo está todo escrito. As folhas de papel se soltam das mãos e molham como plumas. Morde a maçã. As gotas de suco desenham o queixo e caem no seio. Afunda, a cabeça retorna ao primeiro batismo. Não se ouve nenhum choro ou lamento. Volta a face para cima. O mundo é surdo sob a d'água. Não se vê formas, apenas vagos nós de luzes serpeantes.

    O mundo é cego debaixo do espelho.



* * *



O Sol se encerra no ventre da noite. Não restam direções, trilhas ou estradas. Apenas o pulso de meu sangue. Abraço o sorriso escorrendo à boca. Escondo meu espírito nos vincos de uma pirâmide. Está submersa no fundo do Atlântico. Meu derradeiro monumento. Então, agora, inevitavelmente agora, meu corpo descansa. Estou por fim em casa, acolhido pelos ângulos permeados por água negra. O dia não nascerá. Meu espírito segue o fluxo: como barco em silêncio sobre o Nilo. Singro entre flores brancas. Elas me observam sem desabrochar sua seda. Testemunho o nascimento de meus pais, e dos pais de meus pais, em hieróglifos gravados nas ondas. Sigo o labirinto. As teias me elevam ao topo. Não há círculo que não se rompa num ponto. Até hoje não saberia responder para onde estava indo todo este tempo. Todavia, me habita, hoje, a certeza da origem da primeira semente.
julho 13, 2017


Foi, sem dúvida, de grande sorte o dia em que Lewis Carroll decidiu criar histórias em que Alice viveu suas aventuras, fosse atrás de um Coelho Branco ou atravessando um imenso tabuleiro de xadrez. Ambos os mundos foram capazes de fomentar imensa curiosidade ao longo de gerações, não se limitando ao público infantil, mas também atraindo a atenção de adultos em todo o mundo. Ao final do ano passado, pela segunda vez na vida, tive o prazer de passear através da narrativa repleta de criaturas absurdas e enlouquecidas, e, neste último mês, tive a oportunidade de aprender um pouco mais sobre os detalhes técnicos através do livro A Passagem Secreta – Leitura Política e Filosófica de Alice no País das Maravilhas e Através do Espelho, de Pedro Braga. 

Apesar das suas poucas cento e vinte nove páginas, A Passagem Secreta possui informação bem diversa e inúmeras reflexões pessoais interessantíssimas: desde a perspectiva moderna acerca da educação repressiva na era vitoriana a análises dos jogos semântico morfológicos que suscitam os trocadilhos e neologismos freqüentes em Alice. Inicialmente, Braga trata do tempo e do espaço, e como no universo onírico, campo universalmente reconhecido na literatura e mitologia, somos capazes de fazer quase qualquer coisa, daí a possibilidade de, utilizando truques lógicos e sofismas, inverter a ordem de causa e conseqüência, negar proporções da natureza, subverter papéis, tornar o incoerente a base da coerência, enfim, tudo para realizar o absurdo que há num sorriso sem um gato.

Braga também chama a atenção para o fato de a ironia ser um dos elementos fundamentais em Alice, pois é o tom de sarcasmo que, num mundo bagunçado e invertido, trará à luz de seriedade assuntos como o poder absurdo que tem uma rainha, cortando cabeças a bel prazer; ou sobre o tempo humano visto e apreciado de outra maneira, como acontece nos desaniversários; ou ainda a própria noção de existência das coisas que se realizam quando as vemos, da maneira que Braga avalia a cena em que o Rei pergunta à Alice se estava vendo algo, e ele a inveja por não conseguir ver Ninguém. O autor de A Passagem Secreta suspeita que o pensamento moderno do bispo irlandês George Berkeley de alguma influenciou Carroll. Além disso, Braga produz um diálogo analítico entre Alice e outros autores importantes, como Shakespeare e Edgar Allan Poe, através do enigma proposto para Alice pelo Chapeleiro Louco: “o que há de semelhante entre um corvo e uma escrivaninha”.

É evidente que Alice eleve a níveis extremos traquinagens lógicas e linguísticas. A Passagem Secreta trata da influência desses jogos na técnica usada em nada menos que no indecifrável Finnegans Wake, de James Joyce. 

Um ponto bastante positivo foi que, ao escrever A Passagem Secreta, o autor foi bastante cuidadoso recorrendo a diversas traduções e citando partes importantes no original, auxiliando-me no entendimento de trechos que nem ao menos havia percebido em português. Apesar de algumas sugestões sócio-políticas que podem soar anacrônicas, em especial na questão da educação antiga, os dados históricos (por exemplo, o simbolismo do unicórnio e leão, inerentes ao conflito entre Escócia e Inglaterra), ampliarão os horizontes de leitura do leitor. A escrita de Pedro Braga é simples, porém, aviso que será necessário estar preparado para encontrar um livro ao modelo de obra acadêmica, mas que de nenhuma forma diminuirá o prazer de sua leitura.

Por Jonatas T.B.



Lewis Carroll (Charles Lutwidge Dodgson) ficou famoso por suas histórias Alice no País das Maravilhas e Através do País do Espelho. Carroll nasceu em Cheshire, em 27 de janeiro de 1832 e faleceu em 14 de janeiro de 1898, em Guildford. Professor de Matemática em Oxford, era também diácono da Igreja da Inglaterra e fotógrafo amador. Homem quieto e solitário, sofrendo de tartamudez, ficou quase toda sua vida recluso nos muros da Universidade. Nunca se casou e preferia a companhia de crianças, sobretudo meninas, à de adultos.

Em suas duas mais famosas histórias, ele desmistifica o chamado “país das maravilhas”. Seus livros não contêm nenhuma moral, em que todas as personagens, ou quase todas, possuem também defeitos. Algumas de suas personagens são engraçadas, outras flagrantemente desagradáveis, outras ainda rebeldes.

Professor de Matemática e Lógica, Carroll era um gênio inventivo; tudo buscava transformar em jogo, aí compreendida a linguagem, com a qual se divertia com trocadilhos, palíndromos, inversões, nonsense, além de outras figuras de retórica e remissões de natureza cultural e histórica.

Pedro Braga, neste livro, deixa-se contagiar por esse clima lúdico e propõe uma leitura não só política, mas também filosófica, demonstrando possuir o instrumental necessário advindo da Teoria Literária e da literatura comparada. Erudito sem ser pretensioso, ele conduz o leitor a uma caminhada intertextual, muitas vezes por sendas inusitadas, passando por Shakespeare, Edgar Allan Poe, James Joyce e o filósofo George Berkeley. Ele também se diverte ao deslindar certas charadas propostas por Carroll, e alguns enigmas explícitos ou subjacentes nas duas histórias geniais do professor de Oxford. Pedro Braga propõe também ousadas possibilidades de interpretação, com fundamento na lógica e na matemática. Livro sério sem ser sisudo, escrito em um tom de quem faz o (ou participa do) jogo carrolliniano, demonstrando grande rigor em sua abordagem bem fundamentada, ele pretende, destarte, desvendar o que se esconde por trás do espelho do País das Maravilhas.
maio 29, 2017


“E aquele mundo, vibrante de deslumbramento, acabou também. Quase todos os mundos acabam.”(pg. 10)

Inspirado em eventos da Segunda Guerra Mundial, Resistência é o relato de duas irmãs gêmeas tiradas dos laços de seu avô e mãe pelo Dr. Mengele e levadas ao campo de concentração em Auschiwitz, na Polônia tomada pelas forças nazistas. Lá, junto a anões, albinos e outras pessoas portadoras de alguma singularidade genética, são submetidas a testes científicos que vão desde injeção de substâncias químicas à extração de órgãos e o que parece ser lavagem cerebral.

“Ainda bem que ela não esmiuçou nossas diferenças de identificação. Pearl usava um prendedor de cabelo azul. O meu era vermelho. Pearl falava normalmente. Minha fala era apressada, interrompidas às vezes, cheia de pausas. A pele de Pearl era branca como a neve. Eu tinha pele de sol, toda pintada. Pearl era toda feminina. Eu queria ser toda Pearl, mas por mais que me esforçasse, só conseguia ser eu.” (pg. 16)

Stasha é a gêmea sonhadora. Inquieta e inventiva, a pequena tece, entre as fendas duras que sua mente abre na realidade, outra realidade onde abriga aqueles mais próximos que, assim como ela, lutam para sobreviver. Apesar de resistir à fome, frio e morte, ela é capaz de transformar situações das mais terríveis em ambíguos jogos narrativos, ao mesmo tempo cruéis, curiosos. Em um desses jogos imagina-se na trajetória de formação médica. Consegue inclusive um paciente, um menino semi-vivo que chama de Paciente Número Azul, e a quem promete a cura, analisando e anotando todos os dias dados sobre sua doença, planejando com ele a melhor forma de assassinar o “tio” Mengele.

“O homem que esconderia sua relação com a morte em todos esses nomes. Ele nos disse para chamá-lo de “Tio Médico”. Ele nos fez chamá-lo por esse nome uma vez, depois outra, até que nós o reconhecêssemos, sem erro. Quando acabamos de repetir o nome e ele ficou satisfeito, nossa família já tinha desaparecido.” (pg. 17)
 

Desde cedo, Stasha desejou ser exatamente como sua irmã, Pearl, que, além de atraente e habilidosa dançarina, torna-se espécie de âncora, para que esta não flutue longe demais em seus sonhos e permaneça ainda atenta à realidade. Entretanto, os traumas causados pelas experiências e condição desumana pouco a pouco afastam ambas as personalidades, e cada uma é modelada pela percepção particularmente sensível diante de suas experiências no “zoológico” de Mengele, - o que parece apetecer muito os estranhos apetites do “tio”.

“Ela o chamava de cobaia, mas eu sabia que o menino nomeado Paciente Número Azul era mais do que isso. Eu sabia que ela o considerava um irmão, um trigêmeo, outro membro da família que ela não podia perder. Avisei para ela não se apegar. E ela me acusava de ser insensível. Não estava errada, mas eu não podia evitar ficar insensível com o Paciente porque estava muito cansava de ser sensível por nós duas. Meu corpo estava sobrecarregado de sofrimento, não precisava acrescentar o sofrimento de Paciente.” (pg. 71)

Apesar da realidade atroz, a narrativa de Konar permite espaço o suficiente para que floresça um botão de descoberta do amor. Pearl, mesmo tendo os sentidos fragilizados e o corpo perdendo lentamente sua vida, acaba por conhecer Peter, um menino com certos privilégios por parecer descendente de arianos.

“(...) ele se arrastou para frente em seu delírio moribundo, como se quisesse ver se aquele chifre de marfim continha alguma última coisa para ele, uma mensagem, um ruído, um grito... Mas o guarda, ao ver o interesse dele, o derrubou com uma bala nas costas, no momento em que o homem agarrava o objeto. Só então ele se aquietou. Nuvens vermelhas brotaram entre as listras do uniforme dele. Eu vi quando escorreram e viajaram pelo horizonte dos seus ombros." (pg. 90)

Entre ameaças de nunca mais se voltar de um simples banho por ser, na verdade, um passeio para a câmara de gás, ou a morte por febre tifóide devido a uma histórica praga de piolhos, temo dizer que pouca ou nenhuma esperança resta para aqueles que abrirem as páginas de Resistência. Nenhum sonho ou bela lembrança de outrora é capaz de afastar a contundência do contexto terrível de um campo de concentração. No entanto, em contraste, não há um instante que a habilidade poética de Konar não torne a o texto atraente, como se refinasse a matéria cruenta e bruta: uma mancha que brota do buraco feito à bala por um tiro nas costas durante um jogo de futebol contra os guardas de Auschiwitz, aqui, se torna uma nuvem a subir pelo horizonte dos ombros do morto. Neste sentido, é, de fato, inoportuno deleite.


Leia um trecho da obra. Disponível no site da Rocco.
maio 25, 2017

Quinta-feira, 25 de maio, dia do Orgulho Nerd, ou, mais especificamente, Dia da Toalha :) E como quinta é dia de #tbt, aproveitamos para relembrar nossas resenhas preferidas sobre o tema: O Guia do Mochileiro das Galáxias e Perdido em Marte, escritas pelo Jonatas e pelo Bruno. Confira!


O Guia do Mochileiro das Galáxias - por Jonatas T. B.

O Guia do Mochileiro das Galáxias, de Douglas Adams, atualmente é considerado uma das obras mais conhecidas do “cânon” nerd. Adams constrói uma visão de mundo onde nem o absurdo é capaz de escapar do discurso pretensamente científico. A história é pontuada por críticas sociais bem humoradas e bastante ácidas, que alfinetam desde a burocracia governamental até a percepção transcendente do mundo, bem ao gosto do que se é considerado, na modernidade, reflexões sobre a vida e o homem diante do universo.

A história começa com uma trágica situação. O jovem Arthur Dent está prestes a ter sua casa destruída para que se construa uma estrada estatal. Desesperado, ele decide se colocar na frente de sua moradia impedindo que o trator avance. É nesse instante que Ford Perfect, um alienígena que ficou preso na terra e se disfarçou de ator desempregado, subitamente aparece e o arrasta para um pub a fim de beber umas cervejas antes do fim do mundo. Sim. É exatamente isso. O planeta Terra está a poucos minutos de ser completamente destruído por extraterrestres chamados vogons a fim de construírem uma estrada espacial.

É importante ressaltar que Ford Perfect pertence a uma classe de viajantes intergalácticos que têm o propósito de catalogar e atualizar um livro eletrônico, uma espécie de enciclopédia editável para viagens bastante prático, ou seja, o próprio Guia do Mochileiro das Galáxias.
 
 
 

Marte: tema de fascínio para a humanidade, ponto de partida de relevantes teorias sobre o nosso universo como os estudos de Copérnico e as observações de Tycho Brahe. Nas artes inspirou clássicos de H.G Wells e Philip K. Dick entre inúmeros exemplos que são só uma parte do poder do planeta vermelho sobre nós.

Após a sonda espacial Mariner 4 fotografar pela primeira vez a superfície de Marte em 1964, passamos a ter uma ideia mais próxima da realidade sobre o planeta e uma perspectiva científica torna-se quase exclusiva nas histórias atuais sobre o assunto. Andy Weir desenvolve sua obra The Martian seguindo essa ambientação realista.

2035, Marte, uma forte tempestade de areia acontece durante a estadia da tripulação da ARES III no planeta. Apesar dos esforços, a tripulação sofre contratempos e é obrigada a retornar à Terra deixando o astronauta Mark Watney para trás.




E você, tem algum livro nerd preferido? Conta pra gente nos comentários <3


Mediante toda energia empregada em sua mais recente obra, é difícil considerar Thony Silas apenas um bem sucedido desenhista de histórias em quadrinhos. Já consolidado como artista internacional participando em edições da Marvel e DC, Silas lançou o título A Noiva, produzido sob o selo multimidiático UEON Productions, já revelando sua pretensão de não se limitar aos quadrinhos, e estender seu trabalho para o campo das animações.

A história é uma adaptação livre do romance A noiva da revolução, de Paulo Santos de Oliveira. É escrita na forma de diário narrado pelo líder do movimento revolucionário, Domingos Martins, como tantos influenciados pelos ideias iluministas durante a onda de revoluções liberais em todo mundo. A princípio, Domingos é impedido de casar com Maria Teodora, por esta ser de família tradicional portuguesa, mas logo o próprio contexto conturbado da revolução permite que se consolide um romance entre eles.

A obra contará com oito edições que abarcará o Ciclo Pernambucano, percorrendo a história até um cenário futurista, - o que certamente deixará qualquer leitor curioso. Mas pouco ainda se sabe como se sucederá. O autor é bastante misterioso quanto ao desenvolvimento da trama. Já lançada em inglês, português e brevemente em francês, A noiva contou com o próprio Paulo Santos como consultor literário para corrigir e aconselhar na produção.

Então, vamos ficar na torcida pelo sucesso da HQ e que venham ainda venham muitas edições por aí!


RELEASE: Thony Silas apresenta A Noiva, na Livraria Cultura (SP) no dia 26 de maio, às 19h

O talento de Thony Silas, ilustrador pernambucano da Marvel e DC Comics, será apresentado de um jeito diferente do que o grande público está acostumado. Conhecido pelo traço marcante dos super-heróis como Batman, Mulher Maravilha, Super-Homem e Homem-Aranha, Silas decidiu investir em um projeto autoral apresentando ao mundo fatos históricos de sua terra natal adaptados a uma linguagem pop e ao fantástico universo dos quadrinhos. O lançamento nacional da HQ A Noiva será em São Paulo, no dia 26 de maio, às 19h, na Livraria Cultura – Conjunto Nacional.

A HQ é a primeira publicação da UEON Productions, uma produtora de conteúdo multimídia, fundada no Recife, que promove conexão entre várias plataformas de comunicação e a linguagem contemporânea dos quadrinhos. A produtora é fruto de uma parceria entre Thony Silas, Eron Villar e a empresária Verônica Dantas. A publicação tem a parceria da Villa Lux.

A Noiva homenageia o Bicentenário da Revolução Pernambucana e retrata um dos mais significativos períodos de luta e resistência do povo brasileiro na forma de quadrinhos. Livremente inspirado no romance A Noiva da Revolução, de Paulo Santos de Oliveira, a publicação reconta de forma poética, em letras, traços e cores, o que seria o primeiro capítulo de uma série de episódios marcantes do ciclo das revoluções em Pernambuco.

A HQ foi produzida pelo ilustrador Thony Silas (desenhista da Marvel e DC Comics) com roteiro do dramaturgo, roteirista e diretor Eron Villar, ambos pernambucanos. O autor Paulo Oliveira é parceiro e consultor literário e de contexto histórico, tendo acompanhado o roteiro e as ilustrações.

A Revolução de 1817 é considerada o único movimento separatista do período colonial que ultrapassou a fase conspiratória. O enredo aborda o casamento de Maria Teodora, uma filha de português, que virou símbolo da revolução ao chegar em seu próprio casamento rompendo totalmente com os padrões sociais, com os cabelos curtos e sem joias.

“Muita gente questionou como um artista da Marvel parou para produzir um quadrinho autoral sobre 1817? Já tinha outros projetos autorais, mas fui tomado pela importância da história. Temos dificuldade de criar algo a partir do nosso olhar, do nosso cenário. Nesse contexto tem uma historia de amor e luta pela liberdade. Não é apenas uma historinha”, analisa Silas.

Ainda de acordo com ele, esse projeto tem todas as condições de ter uma repercussão mundial muito maior do que tudo que já fez antes. “Originalidade, iniciativa própria e autonomia são coisas que o mercado requer. Pensar-se como marca é a pegada do momento. Nossa ideia é que A Noiva e os conteúdos produzidos a partir daí, sejam multimídias, ou seja, o quadrinho é o ponto de partida para outras mídias como cinema, TV e games”, assegura.

Onde posso encontrar A Noiva?
Amazon

Livraria SBS:
Unidade 1: R. do Príncipe, 526 - Soledade, Recife – PE.
Unidade 2:Av. Conselheiro Rosa e Silva, 1519 - Loja 17 - Aflitos, Recife – PE.

Banca HQ Guararapes - Revistas e Jornais:
Av. Guararapes, 223 - Santana, Recife – PE.

maio 16, 2017



"Ela se mantinha na ponta do pé, com as pernas esticadas, tão firmemente quanto ele ficava em uma perna só. Ele jamais tirou os olhos dela, nem por um momento. (...)

- Soldadinho de chumbo, - disse o duende, - não deseje o que não te pertence.

Mas o soldado de chumbo fingiu não ouvir."

Acabei de ter a felicidade de ler a versão original de “O soldadinho de chumbo” e descobri que o conto é apenas uma degustação de uma série de livros que tratam das versões originais de contos de fadas, tanto os mais populares quanto os mais raros. O projeto da Editora Wish, publicado por financiamento coletivo, tem um visual caprichado de histórias de origem celta, russa e nórdica.

“O soldadinho de chumbo”, escrito pelo dinamarquês Hans Christian Andersen, é a história sobre um soldado de brinquedo que, por falta de material, fora fabricado com apenas uma perna. Após se apaixonar por uma bailarina de papel coroada por uma rosa de ouropel, é aconselhado por um duende para que não ‘desejasse o que não lhe pertencia’. Depois de ignorar o conselho do duende, o soldado sofre um misterioso acidente que dá início a suas fatídicas desventuras.

A coleção é uma ótima oportunidade para aqueles que desejam adentrar o universo dos contos de fada originais e descobrir que muitos filmes, animações e livros atuais possuem referências, mesmo que inconscientes, aos clássicos. Em “O soldadinho de chumbo”, por exemplo, notei que havia elementos que poderiam se relacionar com o enredo e personagens de Toy Story. O que vocês acham?

Por fim, quero agradecer a editora Wish por nos dar a oportunidade de conhecer uma literatura maravilhosa, capaz de encantar tantas gerações!

Conheça outros projetos da Editora: Facebook | Site

maio 14, 2017


Desintegrando a moral

“Connor ri, pois ninguém jamais fez essa pergunta de forma tão direta. Chega a ser um alívio falar sobre isso. 
- Tinha um cara... um sujeito bem durão. Ele tentou me matar uma vez, mas não conseguiu ir até o fim. De todo jeito, ele foi o último a ser fragmentado no Happy Jack. Eu deveria ser o próximo, mas foi aí que os batedores explodiram o Ferro-Velho. Perdi um braço e acordei com este. Pode acreditar, não foi escolha própria.
Starkey absorve a história e assente, sem julgar.
- Medalha de honra, cara – diz ele. – Exiba com orgulho.”

Nesta última semana, tive a oportunidade de ler Desintegrados, uma ficção científica distópica escrita por Neal Shusterman e publicado pela Editora Novo Conceito, seqüência do best-seller Fragmentados. A história se passa em um futuro próximo, após o final de uma guerra civil americana provocada por conflitos entre pró-vida e pró-abortos. Ambos os lados finalmente entram em um curioso consenso: nenhuma vida seria tirada desde a concepção até a idade de treze anos. Passado o período, haveria a possibilidade de submeter às crianças a um processo clínico bizarro denominado fragmentação (é exatamente isso que você está pensando: separar as partes do corpo e matê-lo ainda vivo).

A lei da fragmentação contém inúmeras condições, mas, basicamente, garante os pais se livrarem dos filhos sem o peso da responsabilidade parental, seja deixando a criança indesejada na porta de outra pessoa (caso denominado “cegonha”), o que tornaria a outra o novo responsável, ou, no caso de adolescentes problemáticos, cujos pais teriam a oportunidade de deixar o filho sob tutela de instituições promotoras de venda de órgãos. No segundo caso, o adolescente não é morto no processo. O fragmentado é mantido vivo nos Campos de Colheita quanto tempo necessário. Segundo a “lógica” da lei, se ele ainda estivesse vivo nos outros corpos, logo, as pessoas favoráveis à vida não teriam do que se queixar. Porém, existe um grupo insurgente denominado denomina RAD (Resistência Antidivisional). A ordem de teor revolucionário acolhe fragmentários desertores para mantê-los a salvo até seus dezoito anos.

A narrativa começa com a fuga de Starkey, um jovem problemático que se alista no grupo de resistência. Sua personalidade impulsiva e capacidade natural de liderança o fazem entrar em conflito com Connor, herói fugitivo de um dos campos de colheita considerado morto, e um dos protagonistas do primeiro livro da série. Enquanto Connor quer confrontar o sistema de fragmentação através de estratégias, Starkey defende uma abordagem agressiva pelo terrorismo. 

Outra personagem que considerei bem interessante da série foi Miracolina. Adolescente preparada desde nascença para ser tributada como dízimo por seus pais, devido a motivos religiosos. Todavia, para mim, Cam é a personagem mais intrigante. É a primeira criatura composta por vários pedaços vivos de seres humanos, incluindo o cérebro, formando assim uma espécie de monstro do livro “Frankenstein”. 

“A escola é enorme, então, mesmo que dízimos não sejam comuns na vizinhança, há outros quatro, todos vestidos de branco como ela. Antes, havia seis, mas os dois mais velhos já se foram. Os dízimos restantes são seus amigos verdadeiros. São aqueles a quem ela sente a necessidade de dizer adeus.”

“- Não – diz Risa. – Não te acho medonho. É só que não consigo te entender. É como olhar para Picasso e tentar decidir se a mulher na pintura é feia ou bonita. Você não sabe, mas não consegue parar de olhar.
Cam sorri.
- Você me vê como arte. Gosto disso.”

Entre os problemas éticos abordados em meio a uma narrativa dinâmica, a história possui variados focos, incluindo personagens não tão importantes para o enredo como pais ou um simples guarda do portão, técnica que Shusterman utiliza muito bem em momentos de suspense. Apesar de eu não ter lido o primeiro livro da série, neste encontrei todas as informações necessárias sem que me perdesse no enredo, e ainda me senti motivado ler os outros. Um elemento que achei bastante criativo são os anúncios do programa de fragmentação ao longo do texto. São fragmentos destacados, sem ligação direta com a narrativa, que reforçam a ambientação, dando a impressão de ironia bastante ácida. 

“Quando perdi meu emprego, as contas e as dividas começaram a se acumular e eu não sabia o que fazer. Não achei que houvesse um jeito de sustentar minha família. Cheguei a pensar em ir até uma unidade de colheita no exterior e me dividir no mercado negro para pagar as despesas da minha família, mas o mercado negro me assustava. Bom, pelo menos há uma proposta em votação para legalizar a fragmentação voluntária de adultos – algo que daria à minha família dinheiro o suficiente para sobreviver. Imagina só! Eu poderia entrar no estado dividido com paz de espírito, sabendo que minha família ficaria confortável – e, ao legalizar isso, seria o fim da linha para os fragmentadores do mercado negro. Vote sim na Proposta 58! Ajude as famílias como a minha e dê um fim à pirataria de órgãos!”

Por fim, Desintegrados me fez pensar bastante nas considerações modernas a respeito da vida. Mediante ao laborioso esforço que foi deixarmos de ser meras bestas, refletir no quanto nossa realidade tem de semelhanças com essa ficção é algo que pode ser aterrador para o leitor mais consciente dos fundamentos originais do direito natural à vida. Assim como no romance de Shusterman, é evidente que no nosso mundo existam grupos políticos que não medem esforços para, através de propagandas e influência de entretenimento artístico, relativizar a vida e reduzi-la ao preço de uma peça vendida no supermercado. Apesar de ser uma ficção, é capaz de chamar a atenção para algo tão sério. A chave de entendimento talvez seja justamente o absurdo, também observado em obras como 1984 e Admirável Mundo Novo. Aconselho veementemente a leitura.




Desintegrados - Neal Shusterman

A Fragmentação tornou-se um grande negócio com poderosos interesses políticos e corporativos em jogo. O governo não quer apenas continuar com ela, como também expandi-la.

Cam foi feito inteiramente com as melhores partes de fragmentados e, tecnicamente, ele é um garoto que não existe. Um verdadeiro
Frankstein do futuro, que luta para encontrar sua identidade e se questiona se um ser como ele pode ter alma.

Quando as ações de um sádico caçador de recompensas ameaçam a causa de Connor, Lev e Risa, o destino de um deles é ligado ao de Cam.

A aguardada sequência de Fragmentados desafia a suposição de onde começa e termina a vida e o que realmente significa viver.