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julho 13, 2017


Foi, sem dúvida, de grande sorte o dia em que Lewis Carroll decidiu criar histórias em que Alice viveu suas aventuras, fosse atrás de um Coelho Branco ou atravessando um imenso tabuleiro de xadrez. Ambos os mundos foram capazes de fomentar imensa curiosidade ao longo de gerações, não se limitando ao público infantil, mas também atraindo a atenção de adultos em todo o mundo. Ao final do ano passado, pela segunda vez na vida, tive o prazer de passear através da narrativa repleta de criaturas absurdas e enlouquecidas, e, neste último mês, tive a oportunidade de aprender um pouco mais sobre os detalhes técnicos através do livro A Passagem Secreta – Leitura Política e Filosófica de Alice no País das Maravilhas e Através do Espelho, de Pedro Braga. 

Apesar das suas poucas cento e vinte nove páginas, A Passagem Secreta possui informação bem diversa e inúmeras reflexões pessoais interessantíssimas: desde a perspectiva moderna acerca da educação repressiva na era vitoriana a análises dos jogos semântico morfológicos que suscitam os trocadilhos e neologismos freqüentes em Alice. Inicialmente, Braga trata do tempo e do espaço, e como no universo onírico, campo universalmente reconhecido na literatura e mitologia, somos capazes de fazer quase qualquer coisa, daí a possibilidade de, utilizando truques lógicos e sofismas, inverter a ordem de causa e conseqüência, negar proporções da natureza, subverter papéis, tornar o incoerente a base da coerência, enfim, tudo para realizar o absurdo que há num sorriso sem um gato.

Braga também chama a atenção para o fato de a ironia ser um dos elementos fundamentais em Alice, pois é o tom de sarcasmo que, num mundo bagunçado e invertido, trará à luz de seriedade assuntos como o poder absurdo que tem uma rainha, cortando cabeças a bel prazer; ou sobre o tempo humano visto e apreciado de outra maneira, como acontece nos desaniversários; ou ainda a própria noção de existência das coisas que se realizam quando as vemos, da maneira que Braga avalia a cena em que o Rei pergunta à Alice se estava vendo algo, e ele a inveja por não conseguir ver Ninguém. O autor de A Passagem Secreta suspeita que o pensamento moderno do bispo irlandês George Berkeley de alguma influenciou Carroll. Além disso, Braga produz um diálogo analítico entre Alice e outros autores importantes, como Shakespeare e Edgar Allan Poe, através do enigma proposto para Alice pelo Chapeleiro Louco: “o que há de semelhante entre um corvo e uma escrivaninha”.

É evidente que Alice eleve a níveis extremos traquinagens lógicas e linguísticas. A Passagem Secreta trata da influência desses jogos na técnica usada em nada menos que no indecifrável Finnegans Wake, de James Joyce. 

Um ponto bastante positivo foi que, ao escrever A Passagem Secreta, o autor foi bastante cuidadoso recorrendo a diversas traduções e citando partes importantes no original, auxiliando-me no entendimento de trechos que nem ao menos havia percebido em português. Apesar de algumas sugestões sócio-políticas que podem soar anacrônicas, em especial na questão da educação antiga, os dados históricos (por exemplo, o simbolismo do unicórnio e leão, inerentes ao conflito entre Escócia e Inglaterra), ampliarão os horizontes de leitura do leitor. A escrita de Pedro Braga é simples, porém, aviso que será necessário estar preparado para encontrar um livro ao modelo de obra acadêmica, mas que de nenhuma forma diminuirá o prazer de sua leitura.

Por Jonatas T.B.



Lewis Carroll (Charles Lutwidge Dodgson) ficou famoso por suas histórias Alice no País das Maravilhas e Através do País do Espelho. Carroll nasceu em Cheshire, em 27 de janeiro de 1832 e faleceu em 14 de janeiro de 1898, em Guildford. Professor de Matemática em Oxford, era também diácono da Igreja da Inglaterra e fotógrafo amador. Homem quieto e solitário, sofrendo de tartamudez, ficou quase toda sua vida recluso nos muros da Universidade. Nunca se casou e preferia a companhia de crianças, sobretudo meninas, à de adultos.

Em suas duas mais famosas histórias, ele desmistifica o chamado “país das maravilhas”. Seus livros não contêm nenhuma moral, em que todas as personagens, ou quase todas, possuem também defeitos. Algumas de suas personagens são engraçadas, outras flagrantemente desagradáveis, outras ainda rebeldes.

Professor de Matemática e Lógica, Carroll era um gênio inventivo; tudo buscava transformar em jogo, aí compreendida a linguagem, com a qual se divertia com trocadilhos, palíndromos, inversões, nonsense, além de outras figuras de retórica e remissões de natureza cultural e histórica.

Pedro Braga, neste livro, deixa-se contagiar por esse clima lúdico e propõe uma leitura não só política, mas também filosófica, demonstrando possuir o instrumental necessário advindo da Teoria Literária e da literatura comparada. Erudito sem ser pretensioso, ele conduz o leitor a uma caminhada intertextual, muitas vezes por sendas inusitadas, passando por Shakespeare, Edgar Allan Poe, James Joyce e o filósofo George Berkeley. Ele também se diverte ao deslindar certas charadas propostas por Carroll, e alguns enigmas explícitos ou subjacentes nas duas histórias geniais do professor de Oxford. Pedro Braga propõe também ousadas possibilidades de interpretação, com fundamento na lógica e na matemática. Livro sério sem ser sisudo, escrito em um tom de quem faz o (ou participa do) jogo carrolliniano, demonstrando grande rigor em sua abordagem bem fundamentada, ele pretende, destarte, desvendar o que se esconde por trás do espelho do País das Maravilhas.
janeiro 15, 2017

Uma semana e(m) um dia, episódio 13. No post de hoje, Jonatas, Rebeca e Regiane compartilham sugestões de filmes e livros. 


Jonatas


Esta semana assisti a uma animação bastante citada em diversas listas de melhores animes recentemente. É a ficção científica romântica Kimi no na wa (Your name), dirigido por Makoto Shikai, que já conhecia pelo premiado 5 centímetros por segundo. 

Kimi no na wa conta a história de Mitsuha, uma colegial que vive na provinciana Itomori, e Taki, um rapaz do ensino médio que vive em Tóquio. Por um motivo misterioso, quando um dos adolescentes dorme, é transferido par ao corpo do outro. A princípio, ambos se comunicam apenas por mensagem, mas conforme ficam íntimos, o que era apenas um estranho acidente, torna-se o início de um romance impossível. 

A história também remente à lenda chinesa chamada “Akai Ito”, uma versão oriental para o conhecido mito das almas gêmeas, mas que, no caso, são ligadas por fios vermelhos invisíveis.

A causa do estranho fenômeno parece ter ligação com a passagem de um meteoro milenar, que também é prenúncio de uma grande tragédia para a cidade de Itomori. Então, já adianto a você: apesar de romântico, Kimi no na wa consegue ser bastante intenso. 

Eu ia cometer a tolice de comparar com Donnie Darko, devido ao clima de paradoxo temporal, mas não, não chega a tanto. Kimi no na wa tem o enredo bem parecido com o de A Casa do Lago (2006) – baseado em Siworae (2000), por também abordar o tema “amores que são impossíveis pela distância do tempo”. E se você gostou de A Casa do Lago, é bem possível que o anime também agrade

Espero que também se divirta com essa inusitada ficção científica romântica e desejo a você um ótimo filme.


Rebeca


Como domingo é o dia da retrospectiva, um dos recebidos da semana foi o A Passagem Secreta - leitura política e filosófica de Alice no País das Maravilhas e Através do Espelho, do autor Pedro Braga, publicado pela Chiado Editora. Sobre o livro: "Pedro Braga, neste livro, deixa-se contagiar por esse clima lúdico e propõe uma leitura não só política, mas também filosófica. Ou autor propõe também ousadas possibilidades de interpretação, com fundamento na lógica e na matemática. Livro sério sem ser sisudo, escrito em um tom de quem faz o (ou participa do) jogo carrolliniano, e pretende desvendar o que se esconde por trás do espelho do País das Maravilhas". Toda curiosidade, admito! :)

Aproveitando este minuto de flashback, preciso dizer que estou AMANDO este tênis branco da Moleca, que finalmente encontrei numa promoção de fim de ano aqui no Rio <3 É um dos calçados mais confortáveis que já tive, sério.

Coisa curiosa foi ter recebido também nestes dias o 30 e poucos anos e uma máquina do tempo, um lançamento da Rocco que promete ser uma mistura de Alta Fidelidade com De volta pro futuro - e pelo pouco que folheei da história, posso dizer que parece mesmo :) Aliás, esta ideia de voltar ao tempo para realizar um sonho, e não para corrigir uma falha em nossos relacionamentos, é realmente um diferencial para a história, ainda mais se você curte o cenário musical alternativo dos anos 90 pra trás, ou se no peito bate aquela saudade "de tudo aquilo que não viu", como diria Renato Russo na música Índios.




Regiane

"Maribeth Klein estava trabalhando até tarde, à espera da conclusão das provas finais da edição de dezembro, quando infartou.

Aquelas primeiras pontadas no peito, porém, pareceram mais aflição que dor, e ela não pensou imediatamente em coração. Pensou em indigestão, provocada pela comida chinesa gordurosa que devorou, à própria mesa, uma hora antes. Pensou em ansiedade, provocada pelo tamanho da lista de afazeres para o dia seguinte. Pensou em irritação, provocada pela conversa com o marido, Jason, que mais cedo, quando ela telefonou, dava uma festinha com Oscar e Liv, apesar das reclamações do vizinho de baixo, Earl Jablonski, e ainda que manter os gêmeos acordados depois das oito aumentasse a probabilidade de um deles acordar no meio da noite (e de acordar Maribeth também).

Mas não pensou no coração. Maribeth tinha 44 anos. Sobrecarregada e extenuada, mas mostre a ela uma mãe que trabalha fora que não o seja. Além disso, Maribeth Klein era o tipo de mulher que, quando ouvia um estampido, não pensava em tiro. Pensava que alguém havia deixado a TV alta demais." (Trecho de Quando eu parti, de Gayle Forman)

Por aqui, a semana também permanece agitada, com muitos acontecimentos e pouco tempo pra colocar as coisas em dia. Então, também quero mostrar pra vocês alguns dos livros que recebi, e que espero fazer uma resenha muito em breve:

Quando eu parti, de Gayle Forman, lançado pela Record

Sinopse:  Primeiro romance adulto da consagrada autora de Se eu ficar, que ganhou as telas de cinema.

Quando um coração falha, não é apenas o corpo que trai. Mas sonhos desfeitos, amores não vividos, destinos cruzados. Maribeth Klein tem a própria cota de problemas: do marido omisso até a chefe e ”ex-amiga” Elizabeth, passando pelos gêmeos superativos. Ela está sempre tão ocupada que mal percebe um ataque cardíaco. Depois de uma complicação inesperada no procedimento cirúrgico, Maribeth começa a questionar os rumos que sua vida tomou e faz o impensável: vai embora de casa. Longe das exigências do marido, filhos e carreira, e com a ajuda de novos amigos, ela finalmente é capaz de enfrentar o passado e os segredos que guarda até de si mesma.

A Teoria de Tudo, de Jane Hawking, publicado pela Editora Gente. Sinopse: Quando Jane conhece Stephen, percebe que está entrando para uma família que é pelo menos diferente. Com grande sede de conhecimento, os Hawking possuíam o hábito de levar material de leitura para o jantar, ir a óperas e concertos e estimular o brilhantismo em seus filhos – entre eles aquele que seria conhecido como um dos maiores gênios da humanidade, Stephen.

Descubra a história por trás de Stephen Hawking, cientista e autor de sucessos como Uma breve história do tempo, que já vendeu mais de 25 milhões de exemplares. Diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica aos 21 anos, enquanto conhecia a jovem tímida Jane, Hawking superou todas as expectativas dos médicos sobre suas chances de sobrevivência a partir da perseverança de sua mulher. Mesmo ao descobrir que a condição de Stephen apenas pioraria, Jane seguiu firme na decisão de compartilhar a vida com aquele que havia lhe encantado. Ao contar uma trajetória de 25 anos de casamento e três filhos, ela mostra uma história universal e tocante, narrada sob um ponto de vista único.

Boa semana pra vocês, amigos! Até breve!!!

agosto 01, 2016


E o post de hoje é dedicado a jovem autora Alice Dias, que há um tempinho entrou em contato com a gente para conversar sobre um de seus projetos, o livro O Grande Assaltante, publicado pela Chiado Editora. Nosso colunista Jonatas teve a oportunidade de conhecer de perto este trabalho e hoje compartilha aqui no blog algumas linhas sobre este lançamento :) Confira!


O romance “O Grande Assaltante”, escrito pela autora Alice Dias e publicado pela Chiado Editora, tem como personagem central a prefeita Amanda. Com apenas vinte e três anos, Amanda é uma mulher perspicaz, sensível e independente, além de ser a mais bela e disputada jovem da cidade. A estabilidade de seu governo é subitamente abalada por uma série de raptos de moças praticada por um misterioso homem mascarado. Ele é rapidamente apelidado pela mídia nacional de o Grande Assaltante, e logo se torna um dos bandidos mais procurados do país. Para realizar o crime, ele utiliza seus dotes de sedução, tão irresistíveis que as jovens não hesitam em subir em sua motocicleta e acompanha-lo, deixando os investigadores ainda mais confusos.

A situação do Assaltante se complica quando o cadáver de uma moça é encontrado. A suspeita em relação ao criminoso se agrava. As autoridades acrescentam a hipótese de ser ele o assassino. Entretanto, conforme as investigações avançam (sob o auxílio do delegado Marques e do inspetor Freitas), Amanda, inesperadamente, começa a cultivar certa atração pelo Grande Assaltante. E o interesse aumenta, até o ponto em que ela se envolve por completo, de forma que não há como voltar atrás.

A caçada, então, se intensifica, iniciando um jogo em que apenas o mais astuto poderia vencer. Os desafios da perseguição conduzem ao encontro inevitável com passado de Amanda, e se é revelado que todos estão de alguma maneira envolvidos na teia de intrigas aparentemente esquecidas da pacata cidade.

Os leitores que adoram histórias sobre amor proibido podem esperar um romance intenso em “O Grande Assaltante”. Os perigos e paixão são os combustíveis que impulsionam o enredo desta obra de Alice Dias, sem perder o contorno leve e a sensibilidade da perspectiva da alma feminina.




Sinopse: Uma cidade pacata no meio do nada começa a ser sacudida por diversos sequestros, praticados por um sujeito particularmente singular nomeado de O Grande Assaltante pela imprensa brasileira. Para o inspetor Freitas estava sendo um grande desafio capturá-lo, mas agora ele teria a ajuda da prefeita Amanda e do delegado Marques. Otimistas, eles iniciam uma investigação, sem saber que na verdade os problemas com o Grande Assaltante estava só começando, e até mesmo a incrível possibilidade de vê-lo evoluir para o Grande Assassino.

Colocando os bons do lado ruim da história, O Grande Assaltante explora e testa os limites humanos e questiona: até onde você iria por amor?



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maio 29, 2016



Leia saudade quando escrevo solidão.



Alceu Valença, O Poeta da Madrugada. Portugal: Chiado Editora, 2015


Qual o intervalo entre a música e a poesia? Se fôssemos conversar sobre a origem das palavras, encontraríamos na cultura grega a melhor das definições: durante milênios, em um mundo anterior à escrita, os povos se reuniam para ouvir os sábios, também chamados poetas, que com suas palavras tornavam presentes os acontecimentos do passado, assim como os dos dias seguintes. No início do mundo, a realidade era a própria Palavra, que de mãos dadas com a memória era também sinônimo de música, e especialmente poesia.

Não nos cabe aqui complicar a Filosofia; aos interessados, recomendo este livro, e seguimos para falar de Alceu, que com a sabedoria dos bardos há quase meio século dedica-nos o seu mundo em canções e versos. 

A história de Alceu Valença tem como ponto de partida a cidade de São Bento do Una, no interior de Pernambuco, onde com seus avós conheceu a poesia, assim como a música, sob o legado de Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro e outros mestres nordestinos.

Ao completar 45 anos de carreira, publica O Poeta da Madrugada (Chiado Editora, 2015), uma coletânea de escritos produzidos desde a juventude, em uma época como 1968, onde a vida era um trópico de sol e insônia, e também boemia, saudade, sertão. Afinal, seja em Pernambuco ou no mundo antigo, a poesia continua sendo a musa de nossos dias, assim como a música de nossa existência. E cabe a nós esta celebração.


Acredito que mesmo quem nunca ouviu Alceu cantar, quem não o conheça enquanto cantor, rapidamente se aperceberá de que estes são versos nascidos para a música. Ou melhor: são versos que já trazem consigo a música, uma melodia interna, que permanece em nós, que continua reverberando em nós, mesmo depois que nos afastamos deles.

Sempre que vejo a lua, sempre que a vejo alta e redonda, lembro-me daquela noite, já distante, em que ouvi Alceu cantar. Sempre que me perguntam para que serve a poesia lembro-me dessa noite. A poesia não serve. A poesia não explica. A poesia é aquela lua brilhando (brilhando apenas) na infinita escuridão." (Prefácio por José Eduardo Agualusa, escritor angolano)


O Poeta da Madrugada é uma publicação organizada em dois capítulos: o primeiro, Quase uma biografia, reúne dez poemas em uma espécie de 'linha do tempo', ou itinerário, que parte do agreste, e segue pelo Recife, até São Sebastião do Rio de Janeiro. Neste percurso, o poeta perde-se por entre estradas e amores, e em seguida encontra-se nestes mesmos caminhos.

A segunda parte, Poeta das cidades, da solidão, do amor, do tempo e da saudade... guarda poemas das décadas seguintes, alguns musicados, ao ritmo da voz do pandeiro do repente e do noturno lamento, onde a solidão constrói mundos, e inaugura sonhos, não importa se com os muros que nos cercam ou com os passos que não esquecemos.



Na Primeira Manhã 
(1980)

Na primeira manhã que te perdi
Acordei mais cansado que sozinho
Como um conde falando aos passarinhos
Como uma bumba-meu-boi sem capitão
E gemi como geme o arvoredo
Como a brisa descendo das colinas
Como quem perde o prumo e desatina
Como um boi no meio da multidão

Na segunda manhã que te perdi
Era tarde demais pra ser sozinho
Cruzei ruas, estradas e caminhos
Como um carro correndo em contramão
Pelo canto da boca num sussurro
Fiz um canto demente, absurdo
O lamento noturno dos viúvos
Como um gato gemendo no porão
Solidão.


O Poeta da Madrugada é então uma leitura de muitas estradas, que na voz do autor transformam-se em uma grande viagem, onde o nordeste, o Rio e São Bento são apenas atalhos para mais um capítulo deste país chamado Música Brasileira, ou apenas Alceu Valença.




Recomeçando das cinzas
Vou renascendo pra ela
E agora penso na réstia
Daquela luz amarela

E agora penso que a estrada
Da vida tem ida e volta
Ninguém foge do destino
Esse trem que nos transporta


(Sete Desejos)


maio 01, 2016

Nesta postagem, comentaremos a obra Festivais de Música em Portugal, dos autores Ricardo Brandão e Marta Azevedo, publicada pela Chiado Editora.


Sinopse: 268 festivais de música portugueses preenchem este livro. Muitos aconteceram nos dias de hoje, muitos outros fizeram a sua história e iniciaram o que é hoje uma vertente de negócio importante na economia portuguesa, movendo milhões de euros e festivaleiros.

São diversas as razões do sucesso dos festivais de música mas a principal será a capacidade única de captar uma arte ao ter contacto (mesmo que longínquo) com os próprios artistas, (quase) sem barreiras, numa fuga à rotina e em conjunto com os nossos pares!

Este livro tem o objectivo principal de oferecer um glossário que capta a história dos festivais de música em Portugal, desde 1971 com o surgimentos do Vilar de Mouros e Cascais Jazz, em pleno regime, até à atualidade.


Sabe aquela música que você tanto ama mas que até agora não descobriu o nome porque só ouviu uma vez no rádio ou em um capítulo de série e, até que a música reapareça na postagem de um amigo ou em um vídeo relacionado no Youtube, você continuará inquieto, com toda a ansiedade e mistério coçando nos ouvidos?

Em nossas plataformas de entretenimento, em geral recorremos a playlists, organizadas por estilos, top 10 ou ainda por sensações, como músicas para dias de chuva ou para se ouvir na academia, e uma consequência deste hábito é a termos hoje uma atenção que não se preocupa por exemplo em escutar as doze ou treze canções que compõem um disco, quanto mais ouví-las em em sequência, ainda que as melhores resenhas digam que tal álbum pode ser considerado o melhor de uma década. Porque afinal, quando o que mais nos agrada é a sensação de passar uma tarde ouvindo música, este êxtase interessa-nos bem mais que um punhado de informações. Mas... será que música é apenas experiência, ou é necessário também conhecer a biografia de um artista, os bastidores da gravação de um disco ou ainda a história de cada uma de suas composições?

Trago esta conversa para o blog pois vejo que em nosso universo literário é comum este apego bio/bibliográfico por um autor e sua obra... e de vez em quando a gente é assim também com seriados e filmes. Então, a comparação é inevitável: por que será que nossa geração não costuma dedicar esta mesma atenção e tempo a discos, letras e à própria História da Música? Curioso, não acham?

Talvez por desde sempre ter amigos que igualmente compartilham desta mania de "colecionar" alguma cultura musical, tenho também este gosto enciclopédico quando o assunto é música (todo mundo tem a sua nerdice, certo? rs). Daí que lançamentos como este da Chiado Editora, o Festivais de Música em Portugal, só poderiam despertar minha nerd-atenção imediata e total interesse!

Em relação ao livro em si, este é praticamente um arquivo de todos os eventos musicais de grande porte realizados nas últimas quatro décadas em Portugal, catalogados pelos pesquisadores e profissionais da música Ricardo Brandão e Marta Azevedo, dirigentes da ARPOFEST, a Associação Portuguesa de Festivais de Música. 

Nesta pequena enciclopédia de festivais, que marca o ano de 1971 como inicial nesta contracultura dos eventos de música em Portugal, encontramos catalogados eventos de todos os portes e gêneros (inclusive o conhecido e controverso Rock in Rio Lisboa), com cada página contendo ficha técnica, relação de bandas participantes e uma breve descrição-sinopse do evento.

Para um entusiasta da cultura musical, este é um curioso e interessantíssimo livro, e que poderá tornar-se um grande entretenimento em uma tarde junto a um computador e uma vontade de conhecer novas bandas!

Dentre os eventos do livro, separei algumas indicações de artistas pra vocês:

Celta Cortos - Banda que integrou o Intercéltico de Sendim, um festival realizado anualmente nos anos 2000 a 2014 na cidade de Bragança, e com a participação de artistas folk portugueses e europeus (no caso, o Celta não é português, mas  pareceu-me uma banda bem interessante).

Pedro Abrunhosa - Cantor que participou do Meo Sons de Mar, festival realizado nos anos de 2011-2014 na cidade de Funchal. Quer um spoiler? Este é um cantor citado em uma das obras de Maurício Gomyde. Ouça a canção (aliás, dê uma olhada na letra) e tente descobrir em qual livro esta obra é citada ;)

Toques do Caramulo - Grupo meio folk, meio regional, meio Teatro Mágico com Móveis Coloniais de Acajú rs, enfim, banda de um instrumental que vale a escuta, e que participou na edição de 2010 do Festival Ecos da Terra, realizada em Barragem de Queimadela.

B Fachada - Simmmm, Portugal também tem alguma espécie de indie, com vocalista de barba e tristinho. Conheça B Fachada, cuja participação foi conhecida no Festival de Música Independente - FMI realizado em 2011 na cidade de Braga.

Memória de Peixe - TO APAIXONADA. Sério. Amo bandas instrumentais! E essa é puro rock alternativo, com alguma coisa de progressivo, lindo demais! Recomendo também a escuta de mais esta aqui. Ah, o Memória de Peixe se apresentou no Magafest, festival realizado em Lisboa no ano de 2014.


Para saber mais desta obra, assista uma entrevista com os autores:



E aí, conhece alguma banda de Portugal para recomendar? Compartilhe nos comentários suas histórias e impressões :)
março 13, 2016

Em parceria com a Chiado Editora, recebemos para resenha o livro Receitas de como se tornar um bom escritor, do jornalista paraibano Linaldo Guedes.


Sinopse: Receitas para se tornar um escritor” traz textos sobre temas diversos que acometem o campo literário, como ampliação do número de leitores de poesia no Brasil, a importância do Concretismo, o papel do leitor diante de uma obra literária, jornalismo literário e a angústia da influência à moda de Harold Bloom, entre outros.

Também reúne textos sobre autores como Sérgio de Castro Pinto, João Cabral de Melo Neto, Paulo Leminski, Augusto dos Anjos, Vinicius de Moraes, Augusto de Campos, José Lins do Rego, Fernando Pessoa, Ariano Suassuna e Padre Antônio Vieira.

O objetivo da obra é, principalmente, provocar o debate sobre como se faz e se produz a literatura nos tempos de hoje, com o advento de novas tecnologias, a exemplo de blogues, redes virtuais e sites. E, também, de reforçar a importância da leitura de alguns autores da literatura.


Os ombros suportam o mundo, assim como a escrita, que de mãos dadas com nossos afetos e influências persiste. Quanto ao texto-de-opinião, que sob a especialidade do Jornalismo Literário encontra em meados do século XX seu lugar na imprensa, especialmente a brasileira, este é ainda um ofício reconhecido por seus alicerces de atitude, subjetividade e posicionamento político. E ainda que a imprensa e o jornalismo de hoje em pouco se aproximem de seus ideais de décadas passadas, e tampouco de seus formatos de circulação, o trabalho do texto enquanto 'agente literário' é ainda necessário, especialmente em uma época onde o gosto e a audiência se (des)equilibram em um jogo de segmentação e também aceitação indiscutível.

Em Receitas de como se tornar um bom escritor, o jornalista e poeta Linaldo Guedes apresenta-nos um apanhado de sua produção textual, que desde o ano 2000 publicada em suplementos da imprensa paraibana e em diversos portais e revistas do segmento literário. Dentre os textos selecionados, há diversos olhares sobre a produção cultural do estado da Paraíba, especialmente a da poesia, que encontra em autores como Sérgio de Castro Pinto (que para nós de outras regiões um 'poeta novo', porém de uma produção artística de mais de quatro décadas), Augusto dos Anjos e José Lins do Rego um grande legado e representatividade. Linaldo Guedes também rememora em seus textos a obra de diversos autores nordestinos, como Barbosa Lima Sobrinho, Rachel de Queiroz, João Cabral de Melo Neto e José Américo de Almeida. Nestes escritos, somos levados a uma reflexão a respeito das fronteiras de nossa literatura, e do quão "regionalistas" somos, em uma acepção errônea do termo, pois que de algum modo pouco nos dedicamos ao legado e história cultural de nosso país. Sejamos honestos: quantos de nós sabíamos que o estado da Paraíba era tão rico em literatura e poesia?...

O encontro com publicações como a de Linaldo, que se desdobra entre a proximidade do gosto e o algum distanciamento do jornalismo, é também uma oportunidade para refletirmos acerca de nossas próprias criações textuais; enquanto leitores-que-comentam-livros, penso ser importante também entender o tanto de opinião que compartilhamos em nossas páginas, assim como o tanto de possibilidades poéticas que apresentamos aos nossos interlocutores. Certamente é da 'natureza' do texto não estar isento em convicções e, de forma perigosa até, ideologias, mas é preciso que ao término de cada parágrafo haja algum objetivo, e também algum vislumbre sobre o que gostaríamos que fosse encontrado pelo leitor em nossas linhas. 

Quanto às Receitas em si, o título do livro surge a partir de um comentário de certa forma irônico do autor a respeito de alguns passos comumente conhecidos para se obter o tão sonhado "sucesso artístico"; nesta inquietação sobre a visibilidade e a qualidade da obra em si, o autor nos apresenta uma segunda e terceira provocações: "Escrever se aprende na escola, mas a escola não forma um escritor", assim como "Os poetas não leem os poetas?" (algo a se pensar, não?). E enquanto textos possivelmente publicados em algum suplemento dominical, imagino o quanto de faísca o autor causou em seus leitores e editores! Afinal, apesar dos pesares de uma escrita-de-opinião, este agridoce é também uma importante característica de quem se dispõe ao trabalho de crítica: há que se resistir aos dissabores, assim como às conquistas...

Havendo oportunidade, recomendo a todos a leitura de publicações como esta, da Chiado Editora, que deu espaço a um autor que escreve sem se ausentar, mesmo com todo o risco de seus leitores tanto o cumprimentarem como irem embora de vez. Mas escrever é todo esse risco, e talvez por isso nossa maior insistência.


fevereiro 19, 2016

O post de hoje será dedicado aos lançamentos e publicações recentes das Editoras parceiras. E como nem só de leitura-em-casa vivemos, recomendo para os leitores de Belo Horizonte e Rio de Janeiro a participação em dois bate-papos literários, que irão acontecer no próximo dia 27 de fevereiro. Confira as novidades :)

LANÇAMENTOS


11 Editora
Depois da Rua Tutoia, de Eduardo Reina (pré-venda)

Sinopse: Em seu romance de estreia, o jornalista Eduardo Reina conta a triste e violenta história do sequestro de um bebê por agentes da repressão na ditadura em São Paulo – e como essa mulher viveu depois desse conturbado período. Ficção baseada em histórias reais de pessoas que viveram, lutaram contra, sofreram ou apoiaram a repressão nas décadas de 1960/70.

"Depois da Rua Tutoia" mostra idealismo, corrupção, tortura, amor, traição, ódio e a convivência entre o bem e o mal escondidos na alma dos homens e na história do Brasil durante aquele período. Com consequências inimagináveis que persistem até hoje, mais de 30 anos após o fim da ditadura.

Conheça o Booktrailer de Depois da Rua Tutoia no Facebook da Editora.



Chiado Editora
O Poeta da Madrugada, de Alceu Valença

“Acredito que mesmo quem nunca ouviu Alceu cantar, quem não o conheça enquanto cantor, rapidamente se aperceberá de que estes são versos nascidos para a música. Ou melhor: são versos que já trazem consigo a música, uma melodia interna, que permanece em nós, que continua reverberando em nós, mesmo depois que nos afastamos deles.” (Prefácio por José Eduardo Agualusa)

O Poeta da Madrugada é uma coletânea de poesias, escritas desde 1969, pelo cantor e compositor Alceu Valença, que também permanece em uma turnê de comemoração de seus mais de 40 anos de carreira. Conheça um dos poemas:

"Eu mato o tempo fingindo fazer versos filosóficos / Cheio de dúvidas que povoam minha alma / Mas sigo o caminho tortuoso dos que vestem calma / Ou se fantasiam de atormentados fantasmas / E escrevem versos que não dizem nada / A não ser o que já foi dito ou reeditado / Um passatempo jogo bobo de dados / Ou um velho baralho de cartas marcadas." 


Global Editora

Sinopse: Ricamente ilustrado, o livro apresenta dezenas de cartas que Tarsila escreveu para Luís Martins - e que permaneciam inéditas e desconhecidas, até mesmo por especialistas na obra da pintora. Tarsila escreve com muita paixão (por Luis) e empolgação (pela atenção que sua obra despertava) para o marido, que estava no Rio ou na Europa e que já iniciava o processo de separação. Quando a união acaba, Tarsila tem 64 anos, e ele, 43. Luís, então, se casa com a escritora Anna Maria, de 27 anos. O livro inclui também as cartas de Anna Maria para Luís Martins, trechos da autobiografia do crítico e crônicas publicadas por ele, que tratam, com poucos rodeios, das dificuldades da separação e do novo casamento - que enfrentava oposição aberta dos tradicionais Amarais.


Editora Jaguatirica

Sinopse: O ar necessário é o quinto livro de poesia do mineiro André di Bernardi. Neste livro, André segue buscando aquela engrenagem feita de mistério e desacerto que sentimos presente em cada relâmpago, em cada incêndio. Como o poeta reconhece Tanta persistência e delicadeza só pode vir Dele, por mais que, tolos e ingênuos, os homens acreditem enxergar, embora cegos, acreditem em probabilidades e números, embora caminhem no breu, no desamparo.

É esta a beleza da poesia de André di Bernardi: seus poemas nadam no imponderável, dançam com o inusitado, atiçam o incontrolável e o insuspeito dentro de nós. Vislumbram uma presença sobre-humana, observam que é alguém que nos observa, antes e no lugar de tudo. Basta ler os versos di Bernardi e logo se balançam nossas certezas, feito jabuticaba madura, até que caiam do pé.



 EVENTOS


E no próximo sábado 27 de fevereiro vai rolar em Belo Horizonte o lançamento do livro Dia de sol em tempo de chuva, de Clara Arreguy, publicado pela Chiado Editora. Na ocasião, também será apresentada uma exposição fotográfica do artista Paulo de Araújo.

Sinopse: O jovem João foi um português que emigrou para o Brasil em meados do século XIX. O velho João, seu neto, faz o percurso inverso, em busca da história do avô, dos motivos que o levaram a construir nova vida do outro lado do oceano. Entre delírios e recordações, o velho português sonha com aromas da terrinha e sente saudades de antigos amores. No fim da vida, o velho brasileiro encontra no passado as respostas para seu futuro interrompido.

Duas narrativas paralelas que se cruzam e complementam entre os vinhedos do Dão e a calorenta zona da mata de Minas Gerais.


Também no sábado 27, na Livraria Saraiva do Shopping Rio Sul, aqui no Rio de Janeiro, o Clube do Livro Saraiva convida a autora Bianca Briones para um bate papo e o lançamento de seu quarto livro, O desapego rebelde do coração, publicado pela Verus. Imperdível! 

Sinopse: Branca sempre foi uma mulher independente, que não pensava em se casar tão cedo — até conhecer Lex. Entre idas e vindas, eles se casaram e se divorciaram menos de um ano depois. Ela levou um tempo para superar a perda e, sem esperar muito, começou com Rodrigo um perigoso jogo de gato e rato.

Rodrigo tinha uma queda por Branca quando mais novo, mas hoje a enxerga apenas como a razão de uma paixonite adolescente. O que ele esconde de todos — até de si mesmo — é quanto todas as perdas que sofreu o afetaram, e o único modo de lidar com isso é fingir não sentir nada.

Lex ficou muito tempo afastado de todos que amava, trabalhando em outra cidade e tentando seguir em frente, como sempre fez. Sua intenção era voltar apenas para o casamento de amigos, mas a vida tinha outros planos para ele. Agora os três precisam lidar com o que está acontecendo — e mais, com o bebê que surge com Lex.

Quanto a mágoa pode afastar duas pessoas que se amam? Como encarar uma situação em que pelo menos um deles certamente sairá ferido? A série Batidas Perdidas está de volta, com um dos volumes mais aguardados e a pergunta que não quer calar: De quem será o coração de Branca?


fevereiro 15, 2016

Nesta resenha, apresentaremos o livro A Condessa sem Cheta, da autora portuguesa Joaquina Vieira, lançado pela Chiado Editora em 2015. Pela capa, também imaginei que a história seria uma espécie de "chick-lit encantada", ainda mais havendo este condessa do título; ao invés, encontramos um texto de ficção a partir de uma biografia, cuja protagonista, já em seus muitos anos, decide contar à melhor amiga algumas de suas histórias, para que sejam sempre lembradas, e eternizadas. Nesta cumplicidade, Joaquina Vieira apresenta-nos uma escrita bela e simples, mesmo durante a narração dos eventos mais difíceis que já ouvira. Creio que esta seja uma percepção própria à literatura portuguesa, onde o narrador equilibra algum bom humor e esperança por entre as páginas de realidade e melancolia. E esta publicação da Chiado Editora não poderia ser diferente! Vale conhecer :)

A Condessa sem Cheta

Sinopse: Mulher sem preconceitos, mas marcada pela vida, entregou-se com simplicidade. Confiando em mim foi, aos poucos, se abrindo, entre passeios, chás, cinemas. Deixando rolar seus sentimentos e mágoas, como quem deixa escorrer a água num riacho, assim, colocou em minhas mãos esta história verídica para que o tempo não a apagasse. Foi num delírio que ouvi, repetidas vezes, este testemunho vindo de uma senhora, em toda a acepção da palavra. Aos poucos, fui-me prendendo na história de vida desta condessa que nasceu mendiga, entre gargalhadas, amizade e entrega, tudo pontuado por uma grande solidão. Uma história real e absorvente de alguém que contrariou o destino.


A Biografia como gênero literário tem nos últimos anos passado por grandes transformações, e talvez por isso tornado-se algo como um sucesso de vendas, especialmente em nosso país. Controversas ou não, as recentes publicações de jovens autores e suas histórias de vida (ainda que o período compreendido nesta vida seja de poucos anos ou mera adolescência) fazem-nos pensar sobre até que ponto histórias pessoais podem ou não ser relevantes, assim como os porquês de serem compartilhadas publicamente.

Em contraponto ao mero texto de entretenimento, a narrativa pessoal pode ser encontrada em obras de qualidade literária e estética inquestionáveis, como Orlando, de Virginia Woolf, ou significativas, como por exemplo o relato sóciobiográfico de Eu sou Malala ou as crônicas on the road de músicos e celebridades, como a de Neil Peart, baterista da banda Rush. E já que nosso mercado editorial felizmente comporta esta diversidade de autores e estilos, neste momento não iniciaremos um debate sobre qual ou quais obras seriam relevantes; importa que estes comentários sobre a vida sejam de algum modo lembrados, e quem sabe incorporados em nossos projetos de leitura e blog.

Publicado pela editora portuguesa Chiado, A Condessa sem cheta, de Joaquina Vieira, é um texto biográfico, de narrativa ficcional, onde sob o olhar de sua autora o relato de Rita Bernadete, nossa protagonista, confunde-se com a própria história e cultura da Portugal do início do século XX. Neste memorial, a autora eterniza a narrativa de Rita, que fora mulher determinada e muito à frente de seu tempo, enaltecendo até suas pequenas lembranças, que às mãos de uma boa ouvinte tornam-se grandes lições de vida.

O livro tem início com a voz de Rita, já senhora, em situações e diálogos bem cotidianos, como uma nova amizade com uma vizinha e uma viagem de taxi até a estação de trem. Em meio a solidão própria à idade, a personagem conserva um bom humor em sua prosa, e tal otimismo torna atrativa a leitura para todos os que quiserem conhecer esta instigante biografia.

Em um segundo momento, a narrativa volta-se à primeira infância, e segue até os dias universitários, onde Rita iniciará a segunda melhor época de sua vida (a primeira, ainda criança, quando em um novo ambiente e perspectiva familiar), como se após uma década de obstáculos o destino lhe concedesse uma nova esperança e um futuro.

E como o riso é eterno apenas enquanto poesia, Rita novamente encontra-se em indesejáveis vivências, em seus vinte e poucos anos, apegando-se ao trabalho voluntário e à caridade como forma de manter seu coração e espírito sadios. Joaquina Vieira conduz o corpo da história com muita sensibilidade e clareza, tornando os altos e baixos de Rita em uma narrativa de superação e lições de vida. E eis o melhor de uma Biografia: a certeza de que em suas páginas encontraremos relatos que em muito se assemelham com nossas próprias histórias.


Põe quanto és no mínimo que fazes :)


Gostou deste livro? Você também pode receber esta história participando do SORTEIO que realizaremos aqui no Blog!! <3 Para participar, basta deixar um comentário nesta postagem :) O sorteio será realizado no dia 26 de fevereiro (sexta-feira). Ah, não esqueça de informar seu email de contato e/ou perfil do Instagram <3


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ATUALIZAÇÃO - Resultado do Sorteio :)


Foram contabilizados 6 comentários e o sorteado foi o de nº3, da Paloma! Parabéns!
Entraremos em contato para informar sobre a postagem do livro :)
Agradeço a todos os participantes! <3

janeiro 14, 2016

Você conhece a Literatura Lusófona? Nos últimos anos, a literatura dos países de Língua Portuguesa (a saber: Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste) tem sido cada vez mais difundida aqui no Brasil, especialmente através das obras do escritor moçambicano Mia Couto e do angolano radicado em Portugal Valter Hugo Mãe. Certamente esta literatura estrangeira em português é também produzida por centenas de outros autores que nem sempre encontraremos em nossas livrarias. Então, curiosidade em mãos, saí a pesquisar Editoras que representassem autores de outras nacionalidades, e fiquei muito feliz de ter encontrado o site da  Chiado Editora, especialista na publicação de autores lusófonos e também brasileiros, e gostaria de compartilhar este achado com vocês :)




Sobre a Chiado Editora

"Editar livros não é o nosso trabalho, é a nossa paixão! Na Chiado Editora adoramos livros, os editados por nós e muitos editados por outros. E trabalhamos todos os dias para oferecer a cada Leitor o livro perfeito!

A Chiado Editora é especializada na publicação de autores portugueses e brasileiros contemporâneos, sendo neste momento a maior editora em Portugal neste segmento, e uma das editoras em maior crescimento no Brasil. Em pouco mais de sete anos de existência, a Chiado Editora revolucionou o mercado do livro em língua portuguesa, editando mais de 1000 novos títulos por ano! Em virtude dos métodos inovadores de produção e distribuição que desenvolvemos, todos os livros publicados pela Chiado Editora estão, a todo o momento, disponíveis para todos os Leitores, nas maiores redes livreiras de Portugal e do Brasil.

A política editorial seguida pela Chiado Editora visa democratizar o mundo editorial, gerando as melhores oportunidades para os Autores, e oferecendo aos Leitores excelentes obras, de variadíssimos géneros, a um preço justo e sem preconceitos.

Dado o sucesso conquistado em Portugal e no Brasil, a Chiado Editora expandiu o seu trabalho para vários países, em várias línguas diferentes. Poderá descobrir as obras publicadas pelas nossas divisões internacionais através dos seus websites. A Chiado Editora publica igualmente na Alemanha, Bélgica, Espanha e América Latina, Estados Unidos da América, França, Luxemburgo, Irlanda e Reino Unido.

Convidamo-lo a descobrir os nossos livros. Temos sempre um livro que será um desafio para si. O nosso desafio é merecer que os nossos livros façam parte da sua vida."


Chiado Editora - Site


Pelo que pude consultar do catálogo, a Chiado trabalha tanto com títulos mais históricos, que tratam do passado, língua e tradições dos países lusófonos, como também publicações de poetas e cronistas contemporâneos, assim como autores das áreas de educação e cultura, marketing, administração, sociologia, psicologia e muitos outros temas! Há inclusive alguns títulos interessantíssimos a respeito da cultura musical portuguesa, como Banda Sonora - 100 retratos na Música Portuguesa, Festivais de Música em Portugal e também um curiosíssimo título do segmento chick-lit chamado A Condessa sem Cheta, que tem tudo pra ser uma história meio Meg Cabot lusitana! Confesso que to doida pra conhecer esse livro :D (aliás, cheta, segundo um dicionário-tradutor, significa dinheiro, posses. Ou seja, o livro conta a história de uma princesa de poucas finanças, bem gente como a gente rs).


A Condessa sem Cheta



Enfim, estou muito feliz por esta parceria com a Chiado Editora em 2016! E espero em breve compartilhar aqui no Blog um pouco mais dessas luso-lits com vocês! <3