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julho 19, 2018

 
Olá, Leitores! A Dica de Leitura de hoje é a de um box encantador publicado pela Global Editora <3 Crônicas de viagem é um conjunto de três livros (ou seja, mais de 700 páginas!) que reúne crônicas de Cecília Meireles publicadas na imprensa entre os anos 1940 e 1960. Neste diário de bordo, Cecília compartilha em prosa e crônicas suas impressões de viagens por diversas regiões do Brasil e países como México, Índia, Estados Unidos, Portugal. 

Uma obra cativante, repleta de afetos pessoais em meio a destinos coletivos. Imperdível!


"Esta cidade é cor-de-rosa porque os grandes edifícios, construídos de grés avermelhado, adquirem ao sol uma irradiação de aurora ou luminoso ocaso – e essa tonalidade, e o azul do céu, e os jardins verdes formam o cenário deslumbrante por onde passam, como em sonho, homens de turbantes multicores, mulheres de vaporosos sáris, crianças vestidas como ídolos, e essas carruagens que são a minha paixão, com uns cavalinhos quase alados, e que até parece que sorriem, todos enfeitados com penachos, colares, xailes e flores! (Ah! meus amigos, se tiverdes de reencarnar, e de vir – Deus vos proteja, mas quem sabe o que nos espera!… – de vir sob a forma de bicho, fazei o possível para serdes cavalinhos de Delhi! Tereis estes colares azuis, de contas grandes como ovos; tereis plumas encarnadas, cor-de-rosa e alaranjadas, no topete; arreios dourados, e flores nas orelhas… Tereis uma carruagem toda reluzente de negro, vermelho e ouro. E um cocheiro de turbante, que move o chicote por amor ao gesto, mas que não bate nunca… E tudo é como um bailado entre o céu e a terra, com belas moças recostadas, tintinantes de joias, que vão como nós para os lugares antigos, onde só se fala de Xá Jehan e de Aurang Zeb e do trono do pavão, que Nadir Xá roubou e levou para a Pérsia…)" (trecho de “O deslumbrante cenário”, volume II, pág. 57)

Sinopse: Ao longo de sua vida, Cecília Meireles percorreu inúmeros países, deslumbrando-se com lugares, pessoas e coisas e revelando sua cultura, inteligência e sensibilidade. Organizados por Leodegário A. de Azevedo Filho, crítico literário e ensaísta já falecido e um dos maiores conhecedores da obra em prosa de Cecília, os 3 volumes que integram esta caixa trazem crônicas da autora publicadas em diversos jornais nas quais ela tece suas impressões e reflexões por ocasião de suas passagens por países como Argentina, Uruguai, França, Itália, Portugal, Holanda, Índia e Israel, além de algumas regiões do Brasil.


abril 10, 2017


Ainda em semana de lançamentos editoriais, compartilhamos uma seleção clássicos da literatura brasileira publicados - e reeditados - pela Global Editora. E como a obra de Marina Colasanti sempre está em nossas listas de leitura, escolhemos três títulos para indicar aqui no blog: Mais de 100 Histórias Maravilhosas; Melhores crônicas; Hora de alimentar serpentes. Aliás, se você estiver no Rio de Janeiro no mês de maio, poderá conhecer um pouco mais da obra de Marina na terceira edição do Clube do Livro Livraria Da Vinci! Aguardamos vocês para uma ótima conversa <3

Abaixo, mais algumas sugestões de clássicos publicados pela Global:


Melhores Contos Lygia Fagundes Telles
(Pocket)

Um dos nomes mais importantes da literatura brasileira, romancista notável, é no conto que Lygia Fagundes Telles encontra o seu mais autêntico meio de expressão e de renovação. As suas histórias, onde a mulher ocupa quase sempre o primeiro plano, desvendam com mão de mestre o íntimo do ser humano, suas dúvidas e perplexidades.

"As histórias apavorantes das noites na escada. Eu fechava os olhos-ouvidos nos piores pedaços e o pior de todos era mesmo aquele, quando os ossos da alma penada iam caindo diante do viajante que se abrigou no casarão abandonado. Noite de tempestade, vinha o vento uivante e apagava a vela e a alma penada ameaçando cair, Eu caio! Eu caio! — gemia a Maricota com a voz fanhosa das caveiras. Pode cair! ordenava o valente viajante olhando para o teto. Então caía um pé ou uma perna descarnada, ossos cadentes pulando e se buscando no chão até formar o esqueleto. Em redor, a cachorrada latindo, Quer parar com isso? gritava a Maricota sacudindo e jogando longe o cachorro mais exaltado. Nessas horas sempre aparecia um dos grandes na janela (tia Laura, tio Garibaldi?) para impor o respeito.

Quando Maricota fugiu com o trapezista eu chorei tanto que minha mãe ficou preocupada: Menina mais ingrata aquela! Acho cachorro muito melhor do que gente, ela disse ao meu pai enquanto ia arrancando os carrapichos do pêlo do Volpi que já chegava gemendo, ele sofria com antecedência a dor da retirada de carrapichos e bernes."

(Lygia Fagundes Telles, Que se chama solidão)


Antologia poética - Cecília Meireles
4ª edição

Antologia poética Cecília Meireles, coletânea publicada pela primeira vez em 1963, um ano antes de sua morte, é a única cujos textos foram escolhidos pela própria poeta. Composta por poemas retirados de diversos livros seus, inclusive alguns textos inéditos – a obra revela, assim, um precioso autorretrato da escritora. Uma obra sobre as pequenas maravilhas da vida até os questionamentos sobre o destino do mundo e da humanidade.

A autora no prefácio comenta: "Há muita maneira de fazer-se uma antologia e não se sabe qual seja a melhor. Pode-se usar um critério estético, ou didático, ou outros, conforme o objetivo que se tenha em vista. Para o leitor, a melhor antologia é a que ele mesmo organiza, ao eleger, na obra completa de um escritor, aquilo que mais lhe agrada, embora com o passar do tempo se possa ver como o gosto pessoal varia, e o que nos agrada numa época já não nos agrada igualmente noutra, tão volúveis somos em nossas preferências e tão diferentes as perspectivas, no caminho a nossa evolução."


Antologia poética - Manuel Bandeira

Antologia poética Manuel Bandeira, coletânea organizada pelo próprio autor em 1961, reúne poemas publicados em diversos livros. No prefácio o autor comenta: A antologia atual é mais completa que as anteriores por incluir também poemas de circunstâncias, constantes do livro Mafuá do malungo, e traduções que fiz de poetas estrangeiros, tiradas do livro Poemas traduzidos. Além disso, recolhem-se nela alguns poemas recentes ainda não coligidos em livro. Como nas duas primeiras, aqui o critério foi marcar a evolução da minha poesia, aproveitando de cada livro o que me parecia representar melhor a minha sensibilidade e a minha técnica.

Nesta obra é possível perceber o conflito, inteligentemente resolvido, entre o moderno e o canônico, as brincadeiras com os temas da vida e da morte e a sua extrema sensibilidade aliada a um domínio técnico apurado. Segundo os estudiosos, Manuel Bandeira, em sua poesia, abandonou o tom retórico de seus predecessores e usou a fala coloquial para tratar, com objetividade e humor, de temas triviais e eventos do dia a dia. Apesar de sua refinada sensibilidade, que remonta aos clássicos portugueses, o autor era capaz, também, de se fascinar com o insólito e o corriqueiro.


Melhores crônicas - Lima Barreto

As crônicas de Lima Barreto, escritas em sua maioria entre 1918 e 1922, revelam a sua revolta e insatisfação com as instituições políticas e sociais. Sem se exaltar, em tom de conversa familiar, ele denuncia aspectos cruéis da sociedade brasileira como o racismo e as injustiças sociais, o que mantém esses textos extremamente atuais.

"Um amigo, muito meu amigo mesmo, paga atualmente, nos confins dos subúrbios, o avantajado aluguel de duzentos e cinco mil-réis por uma casa que, há dois anos, não lhe custava mais de cento e cinqüenta mil-réis. Para melhorar um tão doloroso estado de coisas, a prefeitura põe abaixo o Castelo e adjacências, demolindo alguns milhares de prédios, cujos moradores vão aumentar a procura e encarecer, portanto, ainda mais, as rendas das habitações mercenárias.

A municipalidade desta cidade tem dessas medidas paradoxais, para as quais chamo a atenção dos governos das grandes cidades do mundo. Fala-se, por exemplo, na vergonha que é a Favela, ali, numa das portas de entrada da cidade - o que faz a nossa edilidade? Nada mais, nada menos do que isto: gasta cinco mil contos para construir uma avenida nas areias de Copacabana. (...) De forma que a nossa municipalidade não procura prover as necessidades imediatas dos seus munícipes, mas as suas superfluidades.

(...) A casa, como ia dizendo, é nos dias que correm, um pesadelo atroz. (...) O Governo Federal - não há negar - tem sido paternal. A sua política, a respeito, é de uma bondade de São Francisco de Assis: aumenta os vencimentos e, concomitantemente, os impostos, isto é, dá com uma mão e tira com a outra."

(Lima Barreto, Marginália, 14-1-1922)

janeiro 03, 2017

Olá, pessoal! É com muita alegria que começamos mais um ano aqui no Blog e também no Instagram!! E nada melhor do que começar trazendo novidades, não é mesmo? Uma delas é que vamos dedicar um espaço maior aqui na página para a Poesia, tanto autoral como de nossos autores favoritos! 

Em cada postagem desta nova série, chamada Poesia no Papel, você encontrará uma imagem acompanhada de um trechinho especial (vamos postar a imagem lá no Instagram também). Já o poema completo você encontrará sempre aqui no blog.

E como amamos literatura nacional, não poderíamos começar esta série sem falar de nossa querida Cecília Meireles! <3 Ah! Utilize a hashtag #poesianopapel e compartilhe esse amor por aí também!




Discurso


E aqui estou, cantando.

Um poeta é sempre irmão do vento e da água:
deixa seu ritmo por onde passa.

Venho de longe e vou para longe:
mas procurei pelo chão os sinais do meu caminho
e não vi nada, porque as ervas cresceram e as serpentes
andaram.

Também procurei no céu a indicação de uma trajetória,
mas houve sempre muitas nuvens.
E suicidaram-se os operários de Babel.

Pois aqui estou, cantando.

Se eu nem sei onde estou,
como posso esperar que algum ouvido me escute?

Ah! Se eu nem sei quem sou,
como posso esperar que venha alguém gostar de mim?


(Cecília Meireles, in Viagem, 1939)



dezembro 08, 2016



Não tem jeito: dezembro chegou e a wishlist só cresce, não é mesmo? :) E pra completar essa listinha, indicamos os lançamentos da Global Editora, especializada em títulos de autores hoje clássicos em nossa Literatura Brasileira. Pra quem acompanha nossas postagens, já deve ter percebido que o "fã clube" Cecília Meireles aqui na página é grande! Risos. Tanto que eu não pude resistir ao Box Crônica de Viagens, uma coleção de histórias da autora apresentadas em 3 livros, 784 páginas e uma caixa linda <3 Obrigada Global por realizar o sonho da gente!!

Bom, vamos aos nossos lançamentos favoritos:



Ao longo de sua vida, Cecília Meireles percorreu inúmeros países, deslumbrando-se com lugares, pessoas e coisas, revelando sua cultura, inteligência e sensibilidade. Cecília Meireles – Crônicas de viagem traz o registro das observações da autora por meio de crônicas, com textos descritivos ou líricos, ternos ou irônicos, mas sempre lúcidos. Organizados por Leodegário A. de Azevedo Filho, crítico literário e ensaísta já falecido e um dos maiores conhecedores da obra em prosa de Cecília, os 3 volumes que integram esta caixa trazem crônicas da autora publicadas em diversos jornais.

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Ignácio de Loyola Brandão

Em Se for pra chorar que seja de alegria, o autor reúne 41 crônicas escritas durante a sua carreira no Caderno 2, do jornal O Estado de São Paulo, e na Tribuna de Araraquara. E por que um livro de crônicas? “Porque os meus últimos anos foram marcados por crônicas. Diria que foi uma descoberta tardia, mas uma grande descoberta. É gostosa de escrever, é um pouco de poesia, um pouco de mim, um pouco da cidade, um pouco do Brasil e um pouco do mundo”, responde o autor. Como não poderia deixar de ser, esse é o timbre das crônicas deste livro. São olhares e percepções impressos em textos que retratam as viagens que Loyola fez pelo Brasil inteiro. Segundo o próprio autor, essa obra é uma de suas seleções mais gostosas, mais felizes e mais divertidas. Algumas dramáticas, porque é preciso um pouco de drama. Um livro direto para o coração do leitor, um presente de 80 anos para toda a gente que o acompanha há tantos anos.



Marina Colasanti  

Dando continuidade à coleção Melhores Crônicas, a Global Editora presenteia agora os seus leitores com uma importante seleção de crônicas de Marina Colasanti. O critério da escolha dos textos feita por Marisa Lajolo foi que fossem todos excelentes. E, de quebra, alguns completamente inéditos em livro. A obra também traz toques especiais de Marina: entre as crônicas aqui reunidas, são muitas as que levam seus leitores para o mundo feminino. Na realidade, para os mundos femininos. Na passagem singular para o plural, a multiplicidade de rostos da mulher contemporânea – a gestação, o parto, o cotidiano da trabalhadora, a tão longamente reprimida sexualidade feminina.

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Sérgio Vaz

Como poeta e morador da periferia, Sérgio Vaz sabe, como ninguém, transmitir a alma das ruas. Em ''Flores de alvenaria'', Sérgio nos lança nas calçadas do subúrbio e descortina um universo muitas vezes invisível por meio de textos, ora em verso, ora em prosa, sobre os mais variados temas: educação, negritude, liberdade, sexo, empatia. Com apresentação do cantor e compositor Chico César, a obra traz diálogos, relembra a situação da periferia em outras épocas e conta com poemas que costumam ser declamados na Cooperifa, evento criado pelo poeta que transformou um bar de Taboão da Serra em um evento cultural. Como afirma Chico César, os textos presentes em ''Flores de alvenaria'' variam formas e temas. Mudam a tessitura e o timbre. Pode ser poesia ou prosa. O homem e o poeta são o mesmo, um só. Romântico, mordaz, perplexo, inquieto. Uma obra que encanta ao mesmo tempo que nos golpeia graças ao alto teor de realidade depositado em cada página.

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E também há livros para os pequenos! (e para a infância que permanece em todos nós, claro) :)


E vocês, já conheciam o trabalho da Global Editora e seus autores? :)


ALIÁS!!! Até o dia 12 de dezembro a Global está com inscrições abertas para Parcerias com Blogs Literários! Corre no Facebook da Editora , curta a página e participe desta seleção! <3

https://www.facebook.com/globaleditora/photos/pb.322507991166122.-2207520000.1481202833./1127595177324062/?type=3&theater

setembro 17, 2016


Houve um tempo em nossas cidades onde uma antiga tradição oferecia aos passantes alguma fortuna: ao som de um caixa de música, que na verdade um instrumento de fole e teclas, crianças como os nossos pais se reuniam para contemplar o Realejo, onde um belo pássaro, ao convite da canção e dos olhares dos pequenos, retirava de uma pequena caixa um pedaço de papel que, ao ser aberto, anunciava escritos de boa sorte e vida.

Talvez em algum recanto ainda hajam tradições de rua assim. Aqui em nossa geografia, encontro em Cecília esta prosperidade que de algum modo nos escolhe, assim como aquele tanto de sonho que escolhemos. E "Tarde de Sábado" é um belo conto sobre este "lugar antigo".



Tarde de Sábado

"A tardezinha de sábado, um pouco cinzenta, um pouco fria, parece não possuir nada de muito particular para ninguém. Os automóveis deslizam; as pessoas entram e saem dos cinemas; os namorados conversam por aqui e por ali; os bares funcionam ativamente, numa fabulosa produção de sanduíches e cachorros-quentes. Apesar da fresquidão, as mocinhas trazem nos pés sandálias douradas, enquanto agasalham a cabeça em echarpes de muitas voltas.

Tudo isso é rotina. Há um certo ar de monotonia por toda parte. O bondinho do Pão de Açúcar lá vai cumprindo o seu destino turístico, e moços bem falantes explicam, de lápis na mão, em seus escritórios coloridos e envidraçados, apartamentos que vão ser construídos em poucos meses, com tantos andares, vista para todos os lados, vestíbulos de mármore, tanto de entrada, mais tantas prestações, sem reajustamento — o melhor emprego de capital jamais oferecido!

Em alguma ruazinha simpática, com árvores e sossego, ainda há crianças deslumbradas a comerem aquele algodão de açúcar que de repente coloca na paisagem carioca uma pincelada oriental. E há os avós de olhos filosóficos, a conduzirem pela mão a netinha que ensaia os primeiros passeios, como uma bailarina principiante a equilibrar-se nas pontas dos sapatinhos brancos.

Andam barquinhos pela baía, com um raio de sol a brilhar nas velas; há uns pescadores carregados de linhas, samburás, caniços, muito compenetrados da sua perícia; há famílias inteiras que não se sabe de onde vêm nem se pode imaginar para onde vão, e que ocupam muito lugar na calçada, com a boca cheia de coisas que devem ser balas, caramelos, pipocas, que passam de uma bochecha para a outra e lhes devem causar uma delícia infinita.

Depois aparecem muitas pessoas bem vestidas, cavalheiros com sapatos reluzentes, senhoras com roupas de renda e chapéus imensos que a brisa da tarde procura docemente arrebatar. Há risos, pulseiras que brilham, anéis que faíscam, muita alegria: pois não há mesmo nada mais divertido que uma pessoa toda coberta de sedas, plumas e flores, a lutar com o vento maroto, irreverente e pagão.

E depois são as belas igrejas acesas, todas ornamentadas, atapetadas, como jardins brancos de grandes ramos floridos

Por uma rua transversal, está chegando um carro. E dentro dele vem a noiva, que não se pode ver, pois está coberta de cascatas de véus, como se viajasse dentro da Via-láctea. Todos param e olham, inutilmente. Ela é a misteriosa dona dessa tardezinha de sábado, que parecia simples, apenas um pouco cinzenta, um pouco fria. E a moça que vem, com a alma cheia de interrogações, para transformar seus dias de menina e adolescente, despreocupados e livres, em dias compactos de deveres e responsabilidades. É uma transição de tempos, de mundos. Mas os convidados a esperam felizes, e ela não terá que pensar nisso. Ela mal se lembra que é sábado, que é o dia de seu casamento, que há padrinhos e convidados. E quando a cerimônia chegar ao apogeu, talvez nem se lembre de quem é: separada dos acontecimentos da terra, subitamente incorporada ao giro do Universo."


Texto extraído do livro "Escolha o seu sonho", publicado pela Distribuidora Record em 1964.
Disponível no site Releituras.


setembro 14, 2016


Quando o tempo em seu abraço
quebra meu corpo, e tem pena,
quanto mais me despedaço,
mais fico inteira e serena.
Por meu dom divino, faço
tudo a que Deus me condena.

Da virtude de estar quieta
componho o meu movimento.
Por indireta e direta,
perturbo estrelas e vento.
Sou a passagem da seta
e a seta - em cada momento.


(in Mar Absoluto e Outros Poemas)



Foi em 1945 que os versos de Cecília Meireles anunciaram o mar enquanto metáfora para o transitório e a impermanência. Em Mar Absoluto e Outros Poemas, a voz do texto é a do passado, assim como a da travessia, sendo o poema a própria imagem de uma eternidade que pelos corpos se manifesta e esvai, como brisa e despedida, ou rastro de sonho, ou destroços e uma herança, todos estes tão próximos, tão familiar... Era o poema então tua-nossa família?

Quem tivesse um amor, nesta noite de lua,
para pensar um belo pensamento
e pousá-lo no vento!...
Quem tivesse um amor - longe, certo e impossível -
para se ver chorando, e gostar de chorar,
e adormecer de lágrimas e luar!
Quem tivesse um amor, e, entre o mar e as estrelas,
partisse por nuvens, dormente e acordado,
levitando apenas, pelo amor levado...
Quem tivesse um amor, sem dúvida nem mácula,
sem antes nem depois: verdade e alegoria...
Ah! Quem tivesse... (Mas quem tem? Quem teria?)

(in Mar Absoluto e Outros Poemas)


Diário de Bordo, uma publicação de 2016 da Global Editora, resgata este olhar imenso de Cecilia, que sempre atento à grandiosidade do mundo e da terra por que percorre seus pés. Conheça melhor este lançamento obra assistindo o booktrailer realizado pela Global:




Diário de Bordo - Crônicas ilustradas de uma viagem marítima a Portugal

Sinopse: A história de Cecília começa antes de seu nascimento, inicia-se nos Açores, onde nasceram seus antepassados. A beleza e o silêncio do mar foram enriquecidos com os mistérios e o lado obscuro da morte – revelando uma poesia mística, lírica e serena. Diário de Bordo é o relato de uma viagem marítima, com destino a Portugal, que durou 22 dias. Os textos, em bela prosa, descrevem, inúmeras vezes, o matrimônio entre os mistérios do oceano e os céus enormes, em que procurou captar as constantes mudanças de cor e movimento, conforme as horas do dia, as nuvens, a força e a direção dos ventos.  A obra é composta também por ilustrações de Fernando Correia Dias, artista plástico português e marido da poeta, que a acompanhou nessa viagem. As crônicas e ilustrações foram publicadas pelo diário A Nação, sob o título Diário de Bordo.

Há as viagens que se sonham e as viagens que se fazem – o que é muito diferente.
O sonho do viajante está lá longe, no fim da viagem, onde habitam as coisas imaginadas.
Cecília Meireles

Esta obra, em que Cecília registra suas minuciosas impressões, não retrata somente a beleza dos mares, mas também os que, na terceira classe, regressavam, vencidos e humilhados, a Portugal, sem terem realizado o sonho da América. Entretanto, foi a partir dessas crônicas, que o mar se instalou na sua poesia como tema, paisagem e símbolo. A poetisa que merecia ser lida torna-se a poetisa que não podia deixar de ser lida, graças a um livro editado em Lisboa em 1939 e dedicado aos portugueses, com poemas em sua maioria escritos nos mesmos dias em que este Diário de Bordo, durante a estada em Portugal e nos primeiros dois anos da imensa mágoa da viuvez. O nome do livro é Viagem.

Canção

No desequilíbrio dos mares,
as proas giram sozinhas...
Numa das naves que afundaram
é que certamente tu vinhas.

Eu te esperei todos os séculos
sem desespero e sem desgosto,
e morri de infinitas mortes
guardando sempre o mesmo rosto

Quando as ondas te carregaram
meu olhos, entre águas e areias,
cegaram como os das estátuas,
a tudo quanto existe alheias.

Minhas mãos pararam sobre o ar
e endureceram junto ao vento,
e perderam a cor que tinham
e a lembrança do movimento.

E o sorriso que eu te levava
desprendeu-se e caiu de mim:
e só talvez ele ainda viva
dentro destas águas sem fim.




abril 21, 2016


"Se eu inventei palavras? Não. Isso nunca me preocupou. No inventar há uma certa dose de vaidade. 'Inventei. É meu.' O que me fascina é a palavra que descubro, uma palavra antiga, abandonada, e que já pertenceu a tanta gente que a viveu e a sofreu."
(Trecho de entrevista de Cecília Meireles a Pedro Block, em 1964)



Há na palavra um alicerce, e também o tropeço, assim determinado pelo erro do homem, que em seu próprio peso insiste, e maldiz, esta condição de pedra, sobre a qual poderia edificar uma casa, uma clareira, ou talvez um poema.

Ao distanciar-se da palavra, o homem emudece, assim como o texto, que desprende um punhado de ais, e tampouco chora, ou canta, sequer desperta, como eco em uma alegoria perdido.

Há no coração da palavra também um chamado, que insurge em um templo de homens, em sua maioria surdos, porém, às vésperas do entendimento e das pequenas felicidades, que para Cecília de atributo certas, pequenas felicidades, que muitos desacreditam, "só existem diante das minhas janelas". Ora, "é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim"¹! E de fato, é preciso estar atento ao que mundo inspira, e inflar o peito para em seguida encontrar vida, e colher o sopro destes versos e pedras.

Ao primeiro ano deste mil e novecentos, anuncia-se ao mundo a força de Cecília, que por um tanto de século viveria (e vive) como música, crônica e poema, e alvoradas, bondade e coretos, ainda a invocar "aquela ternura de épocas mais amenas, quando todos acreditávamos uns nos outros (...) e o futuro não era uma sombra indecisa, mas um sol radioso à espera de nossa passagem"².

Tendo na voz delicadeza única, em suas palavras o mundo tornar-se-ia também grande gesto, e uma quase gramática, de intermináveis sabores e arabescos, que de tão rebuscados eram como uma rima e sua profundidade, e, por sua leveza, tão breves como um oceano, Índico em sua maresia.

O que se diz e o que se entende é como um diário de pequenas gentilezas, que como a felicidade tornam-se imensas, indispensáveis, como a sabedoria de uma canção indiana, ou as que entoava Pedrina, a gentil pajem, e sábia mulher, que "interpretava o barulho dos trens; sabia a linguagem das flores; cantigas de roda; ladainhas e cânticos; histórias de lobisomem³", bem como as chaves do céu, de onde para São Pedro, junto aos astros e folguedos, um dia acenaria. 

É também bela em suas crônicas de transição e travessia; no ano em que nascera, Santos Dumont sobrevoara Paris, e nesta inventada proximidade encontramos também este voo em Cecília, que com suas mãos nos leva a grandes portos e altitudes em uma interminável viagem, onde crônicas e sonhos assombram cidades e calendários ("Devia ser bom viver como as grandes casas pensativas. Devia ser bom viver como a noite, que vai escondendo tudo e tudo transformando em sonhos"4), e hoje, ao tempo das perdas, tornam-se imortais.

Há na palavra então um alicerce, um firmamento-Cecília, onde calos e cores se acalmam, e bradam; à companhia deste alfabeto, intuímos histórias de outrora, e talvez a semelhança de nosso próprio destino: "A moça, porém, continuava, acima de todas as mudanças, a proteger a imagem do mundo com uma das mãos e a iluminá-lo com a outra."5

¹ Trechos de entrevista de de Cecília Meireles a Pedro Block, publicada na revista Manchete, em 1964.
² O que se diz e o que se entendep. 93
³ Idem, p. 52.
4 p. 121
5 p. 29


O que se diz e o que se entende, Cecília Meireles. Global Editora, 2ª edição, 2016.



"O meu assombro é pensarem que eu sempre quero dizer outra coisa. Não! eu sempre quero dizer o que digo." (p. 55)


"A arte de uma crônica é fazer do estranho algo familiar, falar dele delicadamente, como se fosse uma coisa normal, corrente em nosso cotidiano. Econômica, objetiva, empregando o termo exato, poeta o tempo inteiro, fulgurante nas observações, Cecília Meireles nos diverte, ensina, provoca, questiona, faz rir e pensar. Um livro que dá a sensação de ter sido escrito ontem; isso se chama clássico, a linguagem permanente, atual, que nos deixa fascinados." (Ignácio de Loyola Brandão, em seu texto de apresentação, p. 15.)